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Lula sentiu o golpe, e Flávio dominou o confronto

O debate da Band, na noite deste domingo (18), colocou frente a frente dois candidatos e expôs uma realidade incômoda para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva: experiência política não é sinônimo de capacidade de resposta. Flávio Bolsonaro entrou no estúdio disposto a confrontar o adversário, assumiu a ofensiva e explorou justamente os assuntos que o governo gostaria de manter longe dos holofotes. Lula, acostumado aos discursos longos, às lembranças do passado e às plateias favoráveis, encontrou um adversário que não demonstrou constrangimento em fazer perguntas desconfortáveis. O presidente se irritou, reagiu com acusações e perdeu oportunidades de apresentar esclarecimentos convincentes. Para quem esperava uma demonstração de superioridade política, o desempenho foi decepcionante. O velho talento de palanque não bastou quando o microfone passou a exigir explicações.

Flávio Bolsonaro teve o mérito de levar ao centro do debate o escândalo dos descontos indevidos nas aposentadorias do INSS, as suspeitas envolvendo Lulinha e as relações da lobista Roberta Luchsinger com o entorno presidencial. São assuntos graves, que exigem transparência, investigação e respostas públicas. Lula preferiu destacar a atuação da Polícia Federal e a disposição do filho em colaborar com as investigações, mas deixou sem esclarecimento satisfatório parte das questões levantadas. O presidente parece esquecer que mandar investigar é obrigação institucional, não favor político. Quem governa precisa explicar também como as irregularidades prosperaram e o que foi feito para impedir sua repetição. Flávio percebeu essa vulnerabilidade e insistiu nas cobranças. Lula tentou sair pela tangente, mas tangente não é resposta. E aposentado não paga a farmácia com discurso de campanha.

O momento mais delicado surgiu quando Flávio trouxe à discussão Roberta Luchsinger e as declarações públicas da empresária. Lula demonstrou irritação e recorreu novamente à promessa de investigação. O episódio revelou uma dificuldade política evidente: o presidente parece confortável para acusar adversários, mas menos preparado para enfrentar perguntas sobre pessoas próximas ao seu próprio círculo. Flávio explorou essa contradição com insistência e conseguiu deslocar o confronto para um terreno desfavorável ao petista. Isso não significa transformar suspeitas em condenações, mas reconhecer que o chefe do Executivo deve explicações proporcionais à gravidade dos questionamentos. Lula tentou transformar a cobrança em disputa entre famílias. O resultado foi uma demonstração de que, em Brasília, às vezes se troca de assunto com a mesma velocidade com que se troca de ministro.

Na tentativa de recuperar a iniciativa, Lula trouxe o Banco Master, questionamentos envolvendo Daniel Vorcaro, o projeto de um filme sobre Jair Bolsonaro e a abertura dos sigilos bancários e telefônicos dos candidatos e familiares. Foram contra-ataques relevantes, mas insuficientes, nesta avaliação editorial, para neutralizar o desgaste provocado pelas perguntas sobre o INSS e seu entorno. Flávio também evitou respostas diretas sobre temas apresentados pelo presidente, o que impede classificá-lo como irrepreensível. Ainda assim, demonstrou capacidade de provocar, manter a pressão e explorar as fragilidades do adversário. Nas redes sociais, a irritação de Lula e as provocações de Flávio alimentaram vídeos, críticas e memes. Não existe, porém, comprovação de unanimidade digital a favor de qualquer candidato. O que se viu foi uma disputa intensa pela narrativa, na qual Flávio conseguiu produzir imagens politicamente desconfortáveis para Lula. E, para um presidente que construiu a carreira dominando palanques, perder o controle da própria imagem diante das câmeras é um problema considerável.

O saldo político do confronto, sob esta perspectiva, foi mais favorável a Flávio Bolsonaro. Não porque tenha respondido a tudo ou apresentado soluções para todos os problemas brasileiros, mas porque conseguiu impor cobranças e obrigar Lula a defender pontos vulneráveis de seu governo. O presidente teve momentos de reação, mas não apresentou o desempenho convincente que sua experiência e a responsabilidade do cargo exigiam. O próximo debate, previsto para sexta-feira (23), na Globo, será uma oportunidade de corrigir essa impressão. Lula precisará compreender que relembrar conquistas passadas não substitui prestar contas do presente. Flávio, por sua vez, terá de demonstrar que sabe transformar confrontação em propostas concretas. A Band mostrou que o presidente pode até ter décadas de vantagem na política, mas não possui imunidade contra perguntas incômodas. Flávio saiu fortalecido na ofensiva. Lula saiu devendo explicações. E o Brasil continua esperando respostas que nenhum discurso inflamado consegue substituir.

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