Dois números que merecem a atenção dos sergipanos. No centro dessa história está Luciano Franco Barreto, fundador da Construtora Celi, um grande empresário, com trajetória respeitada e importantes realizações em Sergipe. Ele doou R$ 1,3 milhão à campanha de Fábio Mitidieri em 2022 e outros R$ 400 mil em 2026. Entre janeiro de 2023 e setembro de 2026, sua empresa acumulou R$ 386,9 milhões em contratos com o Estado, conforme levantamento da Mangue Jornalismo. Tudo pode estar perfeitamente regular. Mas convenhamos: quando cifras dessa dimensão se encontram, a curiosidade do contribuinte merece mais do que uma resposta protocolar.
A generosidade eleitoral foi ainda maior. Luciano destinou outros R$ 2,8 milhões a 13 candidatos à Câmara Federal ligados ao PSD. Ao todo, R$ 4,5 milhões em doações políticas. É um direito legítimo do empresário. Entretanto, o governo precisa esclarecer quantas empresas disputaram os contratos, quais critérios determinaram as contratações e quanto efetivamente foi pago. Não se trata de insinuar favorecimento, mas de exigir transparência proporcional ao tamanho dos valores. Afinal, o dinheiro privado pertence ao doador. O dinheiro público exige prestação de contas.
A Celi possui tradição, experiência e contratos anteriores à gestão Mitidieri. Afirma que suas contratações seguiram os procedimentos legais. Excelente. Mas a publicidade dos editais, concorrentes, aditivos e pagamentos permitiria à população avaliar os fatos. Contratos firmados não significam valores integralmente pagos nem demonstram irregularidade. O governo gosta de anunciar obras com festa, discursos e fotografias. Poderia demonstrar entusiasmo semelhante ao facilitar o exame das contas. Transparência também merece destaque, mesmo quando não rende inauguração.
Reeleito, Fábio Mitidieri tem uma oportunidade de apresentar os documentos e esclarecer os números. Luciano Barreto merece respeito por sua história empresarial, e não existe razão para transformar doações legais em acusações. Mas o interesse público exige perguntas, inclusive quando envolvem empresários respeitados. R$ 1,7 milhão para as campanhas do governador e R$ 386,9 milhões em contratos estaduais não provam qualquer relação indevida. Mas justificam atenção e fiscalização. Porque generosidade eleitoral é assunto privado e legal. Já a administração de dinheiro público não pode depender apenas da palavra de quem governa.
Fábio Henrique, eleito nas urnas, mas ainda sob atenção da Justiça! Nossa Senhora do Socorro, segundo maior colégio eleitoral de Sergipe, com 123.714 eleitores, acompanha uma situação que merece esclarecimento definitivo. Fábio Henrique conquistou 24.177 votos para deputado estadual, mas seu registro aparece como deferido em prazo recursal ou com recurso, em consulta atualizada em 13 de outubro. Isso não significa cassação nem inelegibilidade confirmada pelo TSE. Caso surja decisão que impeça sua diplomação, Socorro poderá ficar sem representante diretamente identificado com o município na Assembleia Legislativa e na Câmara Federal. Enquanto Itabaiana, Lagarto e outros municípios de menor eleitorado celebram suas bancadas, Socorro corre o risco de assistir à festa da representação política pela janela. É muito eleitor para pouca cadeira! E uma cidade desse tamanho não pode depender apenas de visitas parlamentares em época de eleição.
Samuel Carvalho, dono da bola em Socorro? Na política de Nossa Senhora do Socorro, Samuel Carvalho está numa posição interessante. Prefeito, articulador e liderança de um dos maiores eleitorados sergipanos, ele já concentra considerável influência no município. Se Fábio Henrique não assumir o mandato estadual, poderá desaparecer do cenário uma importante liderança com capacidade de dividir protagonismo político com Samuel. Mas atenção: os dois fizeram campanha juntos, e Samuel declarou publicamente apoio à eleição de Fábio. Ainda assim, a política tem dessas ironias deliciosas. Hoje são aliados; amanhã, quem sabe, podem disputar o mesmo espaço. Fábio já administrou Socorro duas vezes e conhece os caminhos do poder. Samuel, por sua vez, segura a bola, organiza o time e escolhe boa parte das jogadas. Só existe um detalhe: na política, quem está com a bola precisa lembrar que o campo pertence ao eleitor. E esse eleitor adora mudar o placar quando alguém começa a comemorar antes do apito final!
Simão Dias, quem está no comando? A saída do prefeito e a chegada do presidente da Câmara ao comando da Prefeitura movimentaram os bastidores de Simão Dias. A mudança desperta uma pergunta que vai além da disputa política: qual o fundamento jurídico da substituição e quais serão seus efeitos administrativos? A população merece esclarecimentos sobre a transição, a continuidade dos serviços e as decisões do novo gestor. Afinal, mudar o ocupante do gabinete é uma coisa. Mudar a qualidade da administração é o que realmente interessa.
Valmir continua em movimento. Valmir de Francisquinho não parece disposto a abandonar o cenário político. Encerrada a disputa eleitoral, voltou à administração de Itabaiana como secretário-geral de Governo, mantendo presença ativa na gestão municipal. A movimentação demonstra capacidade de articulação e disposição para continuar trabalhando. Mas também amplia suas responsabilidades. Valmir conhece a máquina pública e sabe que prestígio político precisa caminhar acompanhado de resultados. A política pode até abrir portas, mas é a eficiência administrativa que as mantém abertas.
Fábio venceu. Agora precisa entregar. Reeleito governador, Fábio Mitidieri conquistou mais quatro anos e uma responsabilidade ainda maior. A vitória nas urnas representa confiança eleitoral, não aprovação automática de todas as decisões administrativas. Abastecimento de água, educação, saúde e infraestrutura continuam exigindo respostas concretas. O governador terá tempo para cumprir compromissos, mas também enfrentará uma cobrança proporcional ao mandato renovado. Afinal, eleição se ganha com votos. Reconhecimento administrativo se conquista com resultados.
Educação não pode esperar. O impasse entre o governo estadual e os professores exige uma solução que ultrapasse a troca de comunicados e manifestações. Enquanto as negociações não avançam, estudantes e famílias convivem com a incerteza sobre o calendário escolar. O governo precisa apresentar propostas consistentes, e o sindicato, contribuir para uma negociação responsável. A educação não pode permanecer refém de um diálogo que parece sempre próximo de avançar, mas encontra dificuldades para sair do lugar. O aluno precisa voltar a aprender, não continuar aprendendo a esperar.
Consumo consciente começa pelo respeito. A Semana do Consumo Consciente, promovida pelo Tribunal de Justiça, abre espaço para uma discussão necessária sobre direitos, deveres e responsabilidade nas relações de consumo. Mas a reflexão precisa alcançar também empresas e prestadores de serviços públicos. O cidadão deve consumir com responsabilidade, naturalmente, mas também tem direito a pagar por serviços que funcionem. Entre cobranças, tarifas e reclamações, o consumidor sergipano já conhece bastante o valor do dinheiro. Falta assegurar que o atendimento tenha a mesma consciência.
Gararu, diversão também exige fiscalização. Uma licitação do Fundo Municipal de Assistência Social de Gararu, registrada no sistema do Tribunal de Contas, prevê serviços recreativos, transporte e brinquedos. A iniciativa pode proporcionar lazer e integração social, mas requer transparência sobre valores, critérios de contratação e execução. Cabe verificar se os preços são compatíveis com o mercado e se os serviços atendem ao interesse público. Promover diversão é legítimo. Transformar cada contratação em exemplo de boa gestão é obrigação. Quando o dinheiro é público, até a brincadeira precisa ser levada a sério.
Água não pode ser promessa eterna. O abastecimento continua desafiando o governo Fábio Mitidieri e exigindo paciência de quem já esperou demais. Investimentos, projetos e cronogramas são importantes, mas precisam produzir resultados perceptíveis nas residências. A população quer regularidade, informação e solução para as interrupções. A reeleição trouxe ao governador uma nova oportunidade de enfrentar velhos problemas. E existe uma realidade que nenhum discurso modifica: água na torneira vale muito mais do que promessa no palanque.
Transporte gratuito, serviço eficiente. A legislação aprovada em Aracaju assegura a continuidade do custeio da gratuidade no transporte coletivo para pessoas com deficiência e acompanhantes que cumpram os requisitos. Um avanço importante, mas que precisa caminhar acompanhado de acessibilidade, pontualidade e qualidade da frota. O passageiro não necessita apenas de autorização para embarcar. Precisa encontrar um ônibus em condições de recebê-lo. O direito começa na legislação, mas só se completa quando funciona na parada.
UFS, divergência não autoriza violência. O episódio envolvendo um policial militar de folga e manifestantes favoráveis a Lula nas proximidades da Universidade Federal de Sergipe merece apuração rigorosa. Os relatos de disparos exigem esclarecimento sobre a dinâmica dos fatos e as responsabilidades individuais, sem condenações antecipadas. Universidade é espaço de conhecimento, confronto de ideias e liberdade de expressão. Transformar divergência política em situação de risco representa um preocupante retrocesso. Argumentos podem ser duros. O debate pode ser intenso. Mas a democracia não precisa de armas para sustentar opiniões.
O voto chegou antes da campanha. Pesquisa Datafolha apontou que parcela significativa do eleitorado já havia definido sua escolha antes da reta final da disputa. O dado ajuda a compreender por que algumas campanhas investiram tanto em mobilização sem conseguir alterar resultados na proporção esperada. Carreatas, discursos e redes sociais continuam relevantes, mas a decisão eleitoral também se constrói ao longo dos anos, pela confiança ou pelo desgaste dos candidatos. Há uma lição para os estrategistas: nem sempre quem faz mais barulho consegue ser mais ouvido.
As urnas fecharam. Os bastidores abriram. Encerrado o primeiro turno, a política entrou numa fase particularmente reveladora. Vencedores organizam alianças e anunciam prioridades. Derrotados revisam estratégias, procuram explicações e recalculam seus próximos movimentos. Em Sergipe, a movimentação envolve espaços administrativos, lideranças municipais e articulações para a próxima etapa do calendário político. O eleitor acompanha tudo, inclusive os abraços que pareciam improváveis durante a campanha. Afinal, na política, o resultado eleitoral encerra a votação, mas costuma inaugurar uma temporada inteira de negociações.




