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O sal nas mãos e o tempo nos olhos

A espuma branca da onda vinha lamber os pés descalços dos dois, que acabaram de chegar de moto. Aos poucos, apagavam-se as pegadas frescas na areia úmida e fofa da praia. Ambos, pai e filho, seguravam, um de cada lado, a rede, recém molhada, sentindo o peso sutil do nylon e do sal. O filho, com os olhos muito abertos para o horizonte, tinha, às costas, um balde de plástico branco, ainda vazio, batendo de leve contra o próprio corpo.

Eles não estavam ali, apenas, para pescar. Puderam aprender a demorar… Na velocidade dos dias modernos e turbulentos e, porque não dizer, virtual, onde tudo urge e nada (ou pouco) permanece, aquele pai levou o filho, à beira-mar, para ensiná-lo, inclusive, a arte de esperar. Enquanto a maré subia, eles conversavam sobre coisas pequenas e refletiam: o mundo acontece, onde estavam, nos detalhes; o formato de uma concha; o voo rasante de um pássaro; o motivo de a água parecer mais transparente de longe e menos, de perto…o porquê a areia, hoje, estava mais fofinha.

No silêncio que se formava entre uma explicação e outra, eles faziam algo ainda maior: escutavam-se, com presença, algo tão difícil ultimamente. O pai decifrava os medos infanto-juvenis do filho, no modo como ele segurava o balde e a rede; já o filho absorvia a segurança do mundo na calmaria e na experiência da voz do pai. Daí, o menino descobriu que o mar não responde ao nosso imediatismo: ele tem o seu próprio ritmo. Ainda percebeu como o silêncio do pai não era ausência: era abrigo. E seguiu descobrindo novos conceitos: esvaziar o balde de expectativas é o único jeito de preenchê-lo com o que a vida, realmente, tem a nos oferecer e nós, a conquistar.

Por sua vez, o pai, ao olhar para o tamanho do filho em comparação com a imensidão do oceano, engoliu em seco uma lição dolorosa e bela: os filhos são como o mar… grandiosos, livres e feitos para o mundo. Sua missão, portanto, não era represá-lo, mas ensiná-lo a navegar. E concluiu: eles crescem rápido demais! E eu ratifico: como crescem!

Daquele fim de tarde, ambos levariam marcas invisíveis, mas definitivas. A vida inteira estava desenhada naquela praia… O mar é a própria existência. Imprevisível: ora calmo, ora revolto. Ele ensina que não temos controle sobre as marés ou sobre as ondas da vida, mas podemos aprender a navegar e a respeitar o seu curso, apesar delas. A rede representa as nossas escolhas e conexões. Seus nós mostram que os laços familiares e afetivos nos sustentam quando o peso do mundo tenta nos arrastar. O que decidimos lançar ao mundo determina o que trazemos de volta.

Ah, o tão importante balde… Inúmeras vezes, começamos o dia vazios, frustrados por não termos “pescado”, ainda, o que queríamos. O balde nos adverte que o o foco não deve estar na quantidade do que acumulamos, mas na qualidade, pureza e na leveza do que conseguimos carregar. São as pequenas experiências, os instantes de afeto e as miudezas cotidianas que preenchem a nossa bagagem interna, dando valor a nossa caminhada. O balde são, inclusive, os nossos mares e marés de possibilidades.

Já os dois, o pai e o filho, são o elo entre o passado e o futuro. Mostram que a maior pescaria da vida não se faz na água profunda, mas, sim, na superfície do afeto cotidiano. Eles nos fazem entender que a solidão diminui quando dividimos o peso da rede. E como diminui! O amor é a única âncora capaz de nos manter firmes quando o chão sob nossos pés parece ceder com o recuo da maré. E eles pescaram muito? Tenho certeza que jogaram as redes e que aprenderam e ensinaram um ao outro, ao tempo, à vida…A rede, seus nós, o entrelaçar do nylon, o balde e o outro… TUDO ensina. E só não se esqueça de aprender também com o mar…

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