Sergipe está prestes a descobrir que, além de construir uma ponte, também é possível erguer planilhas. A Sedurbi abriu a Concorrência CP0001/2026 para gerenciamento, supervisão e fiscalização da segunda ligação Aracaju–Barra dos Coqueiros. A estimativa saiu de R$ 43,30 milhões para R$ 48,46 milhões: um salto de R$ 5,16 milhões, antes da escolha do vencedor. O contrato de construção, assinado por R$ 838,38 milhões, terá acompanhamento equivalente a 5,78% desse montante. Não é dinheiro para alguém ficar na margem do rio contando caminhões: o edital abrange projetos, fiscalização e tecnologia BIM. O governo precisa explicar cada rubrica. A população dispensa faturas milionárias embrulhadas em siglas.
A régua de comparação merece sair do palanque e entrar na engenharia. A ponte prevista em Sergipe terá 1.452,5 metros; a de Guaratuba, no Paraná, tem 1.244 metros de travessia e foi contratada inicialmente por R$ 386,94 milhões para projetos e construção. Já a ponte de Xambioá, entre Tocantins e Pará, mede 1,7 quilômetro, e o DNIT divulgou R$ 250 milhões para ponte e acessos. São obras diferentes, e os valores são de construção, não de fiscalização. Não servem, portanto, para decretar que os R$ 48,46 milhões sergipanos são abusivos. Servem, sim, para fazer uma pergunta incômoda: onde está o estudo comparativo dos custos de supervisão, com prazo, equipe, equipamentos, encargos e entregas equivalentes? Comparação séria não é misturar concreto com consultoria e chamar o resultado de economia.
O Paraná ainda oferece outra lição: seu Tribunal de Contas examinou requisitos de habilitação na contratação de Guaratuba e, posteriormente, apontou indícios em aditivos, contestados pelo DER. Ou seja, fiscalização de obra grande não combina com cheque em branco. Em Sergipe, a licitação da supervisão prevê sessão em 18 de novembro. Antes dela, a Sedurbi deveria explicar publicamente a atualização de R$ 5,16 milhões, a quantidade e a remuneração dos profissionais, a duração dos postos, os serviços de campo e os critérios para comprovar cada entrega. Também precisa demonstrar como evitará duplicidade entre responsabilidades do consórcio construtor e da futura supervisora. Fiscalizar o fiscal é prudência; pagar duas vezes pela mesma tarefa seria um número de mágica que o contribuinte dispensa.
O governador Fábio Mitidieri e a Sedurbi têm a oportunidade de substituir solenidade por transparência: divulgar a planilha integral, os referenciais de mercado, os pareceres e as condições de medição, além de encaminhar tudo ao controle externo. O TCE e a sociedade poderão avaliar, com números comparáveis, se a estrutura contratada é proporcional ao desafio técnico. Até agora, os documentos consultados não autorizam afirmar sobrepreço ou superfaturamento. Autorizam, porém, uma cobrança sem anestesia: por que a previsão para supervisionar a ponte aumentou tanto, e qual ganho concreto cada real adicional comprará? A obra promete ligar duas margens. A prestação de contas precisa ligar a promessa ao orçamento, antes que a travessia mais cara seja a do dinheiro público para a burocracia.




