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Quase cinco meses depois, Sergipe ainda espera saber quem mexeu na válvula.

Passaram-se quase cinco meses desde que milhares de moradores da Zona Sul e da Zona de Expansão de Aracaju enfrentaram uma rotina que ninguém deveria considerar normal. Faltou água para banho, comida, limpeza da casa, crianças, idosos, trabalhadores e comerciantes. O episódio atingiu áreas como Mosqueiro, Robalo, Santa Maria, 17 de Março e outros pontos da capital depois de problemas na infraestrutura e da posterior descoberta de uma válvula que havia sido manipulada. A Polícia Científica eliminou uma dúvida importante: o equipamento não parou apenas por corrosão ou desgaste natural. O laudo concluiu que houve ação humana e que uma manipulação indevida fraturou o mecanismo da válvula, impedindo a passagem da água. Isso é fato. O que ainda não está publicamente esclarecido é quem fez, por que fez e em quais circunstâncias. 

E é justamente aí que começa a cobrança que não pode secar junto com a torneira. Quando o caso explodiu, a palavra sabotagem apareceu rapidamente no debate público. Mas perícia criminal não funciona por manchete nem por conveniência política. O laudo comprovou ação humana naquele equipamento, mas não identificou publicamente uma conspiração, uma motivação política nem sequer o responsável. Em julho, o delegado geral Thiago Leandro informou que testemunhas haviam sido ouvidas, provas coletadas e que a Polícia Civil aguardava o cumprimento de medidas judiciais sigilosas para concluir o inquérito e identificar os responsáveis. Desde então, nas informações públicas que localizei, não apareceu anúncio de prisão, indiciamento ou conclusão definitiva do caso. 

Isso não é um detalhe burocrático. Para quem ficou dias carregando balde, comprando água, adiando banho e tentando descobrir quando a torneira voltaria a funcionar, saber o que aconteceu é parte da própria prestação de contas do Estado. A população não pode receber somente metade da história. Dizer que houve ação humana responde como a válvula foi danificada. Não responde quem teve acesso ao equipamento, quem o manuseou, se foi uma ação deliberada para interromper o abastecimento, se houve erro operacional, participação de funcionário, prestador ou terceiro, nem se aquela única ocorrência explica toda a dimensão e duração da crise. O próprio Ministério Público tratou posteriormente o desabastecimento como um problema mais amplo, com ações judiciais, compensações aos consumidores e um acordo que prevê R$ 32 milhões em investimentos extraordinários no sistema. 

Também não se pode usar a existência da manipulação como uma borracha para apagar todos os outros problemas do abastecimento. A Agrese, ainda em abril, registrou oficialmente que uma eventual sabotagem por terceiro, mesmo sujeita a investigação criminal, não afastaria por si só as obrigações relacionadas à continuidade do serviço e à guarda, segurança e integridade dos equipamentos da concessão. É uma observação decisiva: descobrir um possível autor não encerra automaticamente a discussão sobre fiscalização, operação e prevenção. O MPSE já vinha recebendo reclamações de desabastecimento e baixa pressão antes daquele episódio, inclusive em localidades com registros que remontavam a 2025. Portanto, são duas perguntas diferentes que precisam de resposta: quem danificou a válvula e por que o sistema permitiu que tanta gente permanecesse sem água durante tanto tempo? 

A Polícia Civil não deve essa explicação apenas ao governo, à Iguá, à Deso ou à Agrese. Deve ao cidadão que abriu a torneira e ouviu apenas o silêncio do cano. Se houve crime, é preciso chegar ao responsável e apresentar a conclusão quando juridicamente possível. Se houve manipulação sem sabotagem organizada, isso também precisa ser esclarecido. Se outros fatores contribuíram para prolongar o desabastecimento, eles precisam aparecer no fechamento dessa história. O que não pode acontecer é o caso terminar numa espécie de limbo conveniente, em que se anuncia a ação humana, fala se em sabotagem, passam os meses e ninguém sabe quem fez nada. A água voltou às torneiras. A resposta completa ainda precisa chegar à população.

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