Imagine uma família sergipana diante da prateleira do supermercado, um comerciante de Itabaiana recalculando preços e um prestador de serviços de Aracaju tentando entender a próxima nota fiscal. É nesse cenário que chega a reforma tributária do governo Lula. O TCU estimou em 11,3% a alíquota de referência da CBS para 2027. Somada ao futuro IBS, a tributação-padrão poderá se aproximar de 30% ou superar esse patamar em algumas projeções. Não é percentual definitivo nem aumento automático de 30% nos preços. Mas já preocupa quem transforma discursos de Brasília em contas no fim do mês.
Simplificar impostos é necessário. A reforma promete reduzir a cobrança em cascata e tornar a tributação mais transparente. Contudo, trocar a sopa de siglas não garante alívio no bolso. A CBS substituirá PIS e Cofins em 2027; o IBS substituirá gradualmente ICMS e ISS até 2033. Exceções e benefícios aprovados no Congresso elevam a alíquota necessária sobre outras operações. Cabe ao governo Lula explicar como pretende conciliar modernização tributária, competitividade e uma carga que continua intimidando pequenos negócios. Não adianta trocar a calculadora se a conta permanece pesada.
Em Sergipe, os efeitos variarão. Supermercados precisarão adaptar sistemas e preços, embora produtos da cesta básica nacional tenham alíquota zero. Indústrias podem aproveitar créditos tributários; prestadores de serviços com poucos insumos creditáveis podem enfrentar maior pressão. Empresas do Simples precisarão avaliar suas opções, enquanto comércio, restaurantes, oficinas e turismo arcarão com custos de adaptação. Se houver repasse de custos, o consumidor sentirá a diferença, sobretudo as famílias com renda apertada. A reforma não pode transformar a sobrevivência de pequenos empreendedores em exercício permanente de contabilidade.
O governo federal deve publicar simulações por setor e faixa de renda, explicar a destinação das receitas e demonstrar disciplina nos gastos. Sergipe, Sefaz e entidades empresariais precisam orientar empresas antes que as mudanças cheguem ao caixa. Cashback para famílias elegíveis e desoneração da cesta básica são salvaguardas importantes, mas exigem acompanhamento. A referência de 11,3% ainda depende de definição pelo Senado. Justamente por isso, o debate precisa de números, não de slogans. Se Brasília quer reformar os tributos, deveria começar respondendo à pergunta que o contribuinte faz todos os dias: o que o Estado entrega com tanto dinheiro?



