Sessão ordinária em Aracaju é sempre um espetáculo à parte: tem vereador que vira animador de auditório, outros que se agarram ao microfone como se fosse tábua de salvação, e aqueles que fazem malabarismo entre elogios e lembranças de família. Uns puxam a orelha do Executivo, outros distribuem afagos como se o plenário fosse festa de aniversário.
No meio disso tudo, a população assiste, ou melhor, sobrevive à enxurrada de discursos que prometem muito, mas entregam pouco. É o teatro político em sua essência: palco iluminado, falas ensaiadas e, lá no fundo, a pergunta que ninguém responde: “E Aracaju, o que ganha com isso?”
Pequeno Expediente

Lúcio Flávio (PL), o vereador que virou multitarefas – Lúcio Flávio entrou na tribuna com mais compromissos na agenda do que candidato em reta final de campanha. Primeiro, agradeceu a garantia de segurança jurídica para suplentes em CPIs (porque suplente também quer brilhar no palco). Depois, se emocionou com a nova sede do Abrigo Caçula Barreto, garantiu presença no projeto “Tamo Junto”, e ainda sobrou tempo para aplaudir o “Agosto Lilás” no CRAS Risoleta Neves. Se tivesse mais cinco minutos, anunciava até um reality show próprio: “Lúcio, o incansável”.
Marcel Azevedo (PSB), o “homem da vacina” – Marcel comemorou a taxa de vacinação da gripe em Aracaju, que superou a média nacional. Só faltou levar uma faixa para o plenário: “Aqui se vacina mais, aqui se vive melhor”. E claro, não esqueceu de elogiar o “Tamo Junto”, porque em política, serviço na rua é igual selfie em comício: nunca é demais.
Pastor Diego (União Brasil), o pregador da saúde. Diego foi direto: elogiou as emendas impositivas e cutucou a gestão passada pela falta de centro de imagens. No púlpito, parecia misturar sermão com prestação de contas: “gestão que não aplica recurso em saúde peca duas vezes”. Amém.
Professora Sônia Meire (PSOL), a militância nunca tira férias – Sônia levantou a bandeira da diversidade e já protocolou quatro projetos que dariam inveja a muito deputado federal: frente parlamentar, selo da diversidade, saúde para pessoas trans e reconhecimento da Parada LGBTQIAPN+ como patrimônio cultural. Se o plenário fosse uma sala de aula, ela já teria dado nota zero para quem não entendeu o recado: respeito é dever de casa.

Ricardo Vasconcelos (PSD), o vereador do “powerpoint” – Ricardo foi didático: mostrou vídeo do Mercado do Augusto Franco e elogiou a gestão municipal. De quebra, ainda embalou anúncios de hospital na Zona de Expansão e usina de asfalto digna de propaganda de multinacional. Tudo isso sem perder o fio da meada: “serviço público tem que inspirar confiança”.
Selma França (PSD), Fiscal com lupa na mão – Selma elogiou melhorias, mas deixou o alerta: rampas de acessibilidade sumiram como se fossem mágica de má ilusionista. Disse que vai fiscalizar de perto e ainda parabenizou cavalgada na Coroa do Meio. Entre rampas e cavalos, Selma se firma como a vereadora que não deixa passar nada — nem buraco, nem tropeço.
Sargento Byron (MDB), o indignado da vez – Byron foi duro: denunciou reprovação de 13 candidatos com deficiência no concurso da PM. Jogou a bomba no colo da Defensoria e do MP e disparou: “não quero acreditar que seja preconceito”. Se a Junta Médica da PM não explicar, a bronca vai ecoar mais alto que tiro de festim.
Grande Expediente
Fábio Meireles (PDT), o fiscal dos ônibus fantasmas – Meireles pegou o microfone para lembrar que os ônibus elétricos ainda não chegaram, não têm nota fiscal nem placa. Ou seja: prometeram Tesla, mas entregaram patinete imaginário. Ainda cutucou a prefeita Emília e exibiu imagens de ônibus que desafiam decreto. No fim, parabenizou Mitidieri e até André Moura entrou na fala — porque em Aracaju, discurso político sempre cabe mais um personagem.
Iran Barbosa (PSOL) – o professor da juventude – Iran chamou geral para audiência pública sobre juventude. O discurso parecia aula magna: falou de desigualdade, violência e destacou a resistência das juventudes periféricas e negras. Ainda homenageou o Grupo Imbuaça, que completa 48 anos de palco na rua. O plenário virou quase plateia de teatro: aplaudiu de pé.
Vinícius Porto (PDT), mestre do elogio vazio – Vinícius abriu a fala como sempre: distribuindo flores. Desejou melhoras a Mitidieri, elogiou o programa “Sergipe é Aqui”, homenageou a bisavó na reinauguração da Unidade Caçula Barreto e, para completar, fez questão de citar Yandra Moura como uma das mais influentes do Congresso. Na prática, virou um “clube do elogio” travestido de discurso parlamentar. Enquanto Aracaju clama por soluções, Vinícius transforma a tribuna em vitrine pessoal e álbum de recordações. É bom em bater palmas, mas quando o assunto é proposta concreta para a população, o silêncio é mais alto do que o microfone aberto.
Bigode do Santa Maria (PSD), o porta-voz da praia – Bigode subiu o tom sobre a falta de praças e lazer na Zona de Expansão. Disse que crianças só têm a praia, porque praça só existe no mapa. Cobrou a prefeita Emília e o presidente da Emsurb, mas com aquele jeitão confiante de quem acredita que a bronca vira obra. Se depender dele, o “Santa Maria” vai deixar de ser bairro esquecido para virar manchete.
CPI do Natal Iluminado 2024
Isac Silveira (União Brasil), o presidente que coleciona requerimentos – Isac comandou a 2ª reunião da CPI com a energia de quem sabe que Natal pode iluminar até investigações. Dois requerimentos saíram do forno pedindo informações sobre a parceria com a Energisa. Se Papai Noel existisse, já teria recebido intimação.

Milton Dantas (PSD), o Papai Noel cético – Miltinho não quis pisar em neve fofa: pediu cópia integral de contrato, notas fiscais, pareceres e até o CPF do servidor que carimbou o papel. Quer tudo: de relatório de fiscalização a fotos da árvore de Natal. Se depender dele, cada pisca-pisca vai passar pelo detector de autenticidade.
Breno Garibalde (Rede), o relator paciente – Breno foi cirúrgico: “Agora é aguardar”. Traduzindo: a CPI é igual Natal, promessa de presente só depois de muita espera. Lembrou que documentos da primeira reunião ainda não chegaram e avisou que só depois vem a fase de convocar depoentes. O Papai Noel legislativo é paciente, mas não esquece lista de presentes — ou melhor, de investigados.




