A universidade pública brasileira parece enfrentar uma epidemia de militância seletiva. A UNE anunciou mais de 70 assembleias e plenárias em defesa da reeleição de Lula, numa mobilização em que o discurso acadêmico divide espaço com a propaganda eleitoral. O estudante pode apoiar qualquer candidato. O professor também. O problema começa quando a sala de aula corre o risco de virar comitê partidário e o pensamento crítico passa a funcionar com autorização ideológica. Há quem questione o capitalismo, a sociedade e até a existência humana, mas experimente questionar Lula diante de determinados militantes. O debate pode virar interrogatório. É a curiosa pedagogia da liberdade, na qual todos podem pensar, desde que cheguem à mesma conclusão. Professor que utiliza sua autoridade para constranger opiniões divergentes não forma cidadãos. Fabrica seguidores. E universidade que tolera esse comportamento troca o conhecimento pela catequese eleitoral.
Em Sergipe, a contradição tem endereço conhecido: Universidade Federal de Sergipe. Enquanto famílias fazem sacrifícios para colocar seus filhos na UFS, a instituição enfrenta problemas com terceirizados, dificuldades de manutenção e serviços essenciais. Em 8 de outubro, uma manifestação pró-Lula nas proximidades do campus de São Cristóvão terminou marcada por denúncias de intimidação envolvendo um policial armado. A violência é inaceitável, e a própria UFS esclareceu que não organizou o ato, ocorrido fora de suas instalações. Mas permanece uma pergunta: onde está a mesma disposição da militância para cobrar salários, laboratórios, infraestrutura e qualidade de ensino? O estudante sergipano não precisa de doutrinação, precisa de oportunidade. Quem vota em Lula merece respeito. Quem vota em Flávio Bolsonaro também. Universidade não é condomínio ideológico onde uma corrente política se considera proprietária e os demais precisam pedir licença para existir.
O retrato nacional consegue ser ainda mais constrangedor. Na Universidade Federal de Pernambuco, incêndios provocaram prejuízos preliminarmente estimados em R$ 100 milhões, destruindo laboratórios e pesquisas. As causas seguem sob investigação, sem ligação comprovada com manifestações eleitorais. Na USP, uma ocupação da reitoria em maio terminou com intervenção policial e danos materiais, num episódio sem relação demonstrada com a campanha de outubro. Protestar é direito, depredar é outra história. O patrimônio público não é brinquedo de militante, seja qual for sua ideologia. O curioso é que, enquanto laboratórios precisam de investimentos e trabalhadores reivindicam condições dignas, a mobilização partidária encontra entusiasmo de sobra. Para pedir voto, aparece multidão. Para discutir manutenção, orçamento e eficiência administrativa, a plateia parece menos animada. A ciência pede recursos, a militância pede aplausos e o contribuinte continua pagando a conta.
O Partido dos Trabalhadores, beneficiário político dessa mobilização pró-Lula, deve explicações sobre eventual participação no financiamento dos atos. Quem pagou transportes, estruturas, publicidade e materiais de campanha? Não existe comprovação apresentada de financiamento irregular pelo PT, mas transparência não deveria assustar quem diz defender a democracia. A UNE precisa esclarecer suas despesas, e as reitorias devem assegurar que recursos institucionais não sejam utilizados indevidamente para favorecer candidatos. A Constituição protege manifestações políticas, mas não transforma universidade pública em propriedade eleitoral. Professores possuem liberdade de expressão, não licença para constranger estudantes. A autoridade acadêmica existe para ensinar, não para recrutar. Se um aluno precisar esconder seu voto para evitar hostilidade, a instituição terá fracassado justamente na disciplina mais importante: democracia.
A questão central é simples: universidade pública não pertence ao PT, ao PL, à UNE ou a qualquer corrente ideológica. Pertence à sociedade brasileira. O governo Lula precisa ser cobrado pelas condições de funcionamento das instituições federais com a mesma intensidade com que seus apoiadores defendem sua reeleição. Em Sergipe, o contribuinte não sustenta a UFS para financiar vaidades partidárias, mas para formar médicos, advogados, professores, engenheiros, pesquisadores e cidadãos independentes. O verdadeiro educador celebra quando o aluno aprende a discordar com inteligência. O militante autoritário prefere que ele apenas repita a cartilha. Eis a diferença entre educação e adestramento político. Quando a universidade confunde pluralidade com unanimidade, o diploma continua chegando, mas a liberdade intelectual pode ficar pelo caminho. E a ironia é cruel: jovens que entram na universidade prometendo mudar o mundo podem terminar incapazes de questionar o próprio grupo. Nesse espetáculo, o candidato ganha militantes, a ideologia ganha plateia e a educação corre o risco de sair sem diploma.




