Valmir de Francisquinho e Fábio Mitidieri viveram 24 horas completamente diferentes, embora perseguissem exatamente o mesmo objetivo: demonstrar força antes que o eleitor tenha tempo de perguntar onde estão as propostas. Valmir saiu de uma convenção já realizada, com candidatura homologada, Priscila Felizola na vice e Eduardo Amorim e André David apresentados para o Senado. Fábio, do outro lado, anunciou que sua convenção será realizada em 5 de agosto, no Centro de Convenções AM Malls, reunindo PSD, PT, União Brasil, Progressistas e outros partidos governistas. Um mostrou a festa acontecendo. O outro mostrou o convite da festa. Na política sergipana, até o calendário entrou na campanha e já está pedindo voto.
Valmir passou o período tentando prolongar o efeito político da convenção. Não ficou apenas admirando a multidão, revendo vídeos e escolhendo a melhor fotografia para colocar nas redes sociais. Sua candidatura avançou na montagem da chapa, na organização das suplências e na incorporação de novos aliados. Fábio respondeu de maneira mais institucional, exibindo a largura de sua base partidária e antecipando a estrutura da convenção governista. A diferença de estilo ficou evidente. Valmir trabalhou com a imagem da política feita no corpo a corpo. Fábio trabalhou com a imagem da política feita por partidos, dirigentes e composição de cúpula. Um tenta ocupar a rua. O outro tenta garantir que todas as siglas disponíveis caibam no palco sem que ninguém derrube o microfone.
O movimento mais concreto do grupo de Valmir foi a incorporação da Federação PSDB Cidadania, conduzida por Emanuel Cacho, que vinha sendo apresentado como pretendente ao Governo. Segundo a apuração divulgada pela imprensa sergipana, a federação passou a apoiar Valmir e deverá participar das indicações para as suplências de André David. Ao mesmo tempo, Adailton Souza, ex-prefeito de Itabaiana, e Danilo de Joaldo, ex-prefeito de Itabaianinha, foram definidos como suplentes de Eduardo Amorim. A operação retirou um possível concorrente da disputa e distribuiu espaços regionais importantes. Foi uma engenharia política legítima, mas com todos os ingredientes tradicionais da receita eleitoral: partido, suplência, território, liderança e uma mesa suficientemente grande para acomodar quem chega dizendo que não quer nada.
Fábio, por sua vez, apresentou uma coalizão mais ampla e mais complexa. O governador deverá dividir o palanque com PT, União Brasil e Progressistas, tendo Jefferson Andrade como candidato a vice e André Moura e Rogério Carvalho como candidatos ao Senado. A fotografia transmite poder, capilaridade e domínio da máquina partidária. Também transmite um pequeno desafio logístico: manter tantos interesses diferentes olhando para a mesma direção. Reunir antigos adversários é uma habilidade política. Fazer com que todos trabalhem juntos depois que as cadeiras forem distribuídas é outra história. Fábio montou uma espécie de condomínio eleitoral de luxo. Agora terá de impedir que a primeira assembleia termine com alguém reclamando da vaga na garagem.
Valmir também ganhou manifestações de apoio de lideranças de Poço Verde, entre elas o ex-prefeito Toinho de Dorinha e a vice prefeita Edna. O gesto ajuda sua candidatura a ultrapassar as fronteiras de Itabaiana e buscar presença efetiva em outras regiões do estado. É exatamente esse o desafio de Valmir: transformar a força eleitoral do Agreste em uma rede espalhada pelos 75 municípios. Apoio de liderança local não garante voto automático, pois eleitor não vem mais embalado em pacote fechado como antigamente. Ainda assim, quem conhece política municipal sabe que prefeito, ex-prefeito, vice, vereador e liderança comunitária ajudam a abrir portas, reunir grupos e descobrir onde será servido o café. E eleição sem café, cadeira de plástico e alguém dizendo que trouxe cinquenta pessoas ainda não foi inventada.
Fábio utilizou como principal combustível de comunicação uma nova pesquisa do Instituto W1, divulgada em 21 de julho, que o colocou à frente de Valmir. O resultado foi naturalmente recebido pelo governismo como se as urnas já estivessem sendo enceradas para a posse. Pesquisa favorável sempre vira ciência exata para quem lidera e suspeita metodológica para quem aparece atrás. O cuidado necessário é lembrar que o próprio W1 já apresentou Valmir numericamente à frente em levantamento anterior, demonstrando que o cenário se movimenta e que pesquisa é fotografia de um período, não contrato de quatro anos reconhecido em cartório. Fábio ganhou um argumento importante para sua narrativa, mas ainda não ganhou o direito de desligar a calculadora eleitoral.
A briga pelo Governo de Sergipe, portanto, começou a abandonar o aquecimento e entrou na fase em que cada movimento de um lado provoca uma resposta do outro. Valmir realiza a convenção, Fábio anuncia a dele. Valmir agrega a Federação PSDB Cidadania, Fábio exibe PT, União Brasil e Progressistas. Valmir apresenta suplentes e apoios municipais, Fábio apresenta pesquisa e estrutura partidária. É uma partida de xadrez jogada com carro de som, grupo de mensagens, instituto de pesquisa e dirigente partidário que acorda aliado e pode dormir negociando. Ninguém está apenas observando. Até quem diz que ainda não decidiu provavelmente já escolheu o lugar onde pretende sentar.
No recorte dessas 24 horas, Valmir apresentou mais movimentos já consumados, como convenção, composição de suplências e adesões locais, enquanto Fábio concentrou sua ação na preparação da convenção, na exibição do arco governista e na divulgação de uma pesquisa favorável. Isso não determina quem vencerá, mas revela as estratégias. Valmir tenta construir a imagem de candidato em movimento, próximo das lideranças e disposto a ampliar sua coalizão. Fábio procura demonstrar estabilidade, força institucional e controle sobre uma poderosa base partidária. A campanha apenas começou, mas o governo já percebeu que não poderá disputar a eleição sentado na cadeira do Palácio, enquanto Valmir também terá de provar que multidão, adesão e entusiasmo conseguem virar programa de governo. Por enquanto, um corre com a feira e os feirantes. O outro chega com o salão reservado, a lista de convidados e a pesquisa debaixo do braço. Sergipe terá alguns meses para descobrir quem trouxe o melhor produto e quem apareceu apenas com a embalagem.




