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A Crise Hídrica em Sergipe: porque o Canal de Xingó e a Reestatização da DESO devem voltar ao centro do debate

No dia 22 de julho de 2026, o monitoramento das promessas de governo divulgado pelo G1 Sergipe indicou que, após três anos e meio de gestão, grande parte dos compromissos assumidos pelo Governo do Estado, Fábio Mitidieri, permanecia pendente de conclusão. Entre eles, destacam-se as propostas relacionadas aos recursos hídricos, ao saneamento e ao fortalecimento da Companhia de Saneamento de Sergipe (DESO), temas que continuam ocupando posição central na agenda pública sergipana. No Programa de Governo de 2022, o eixo dedicado ao saneamento estabeleceu o compromisso de ampliar o acesso aos recursos hídricos e melhorar a qualidade da água distribuída à população. Já o eixo de gestão previa o aperfeiçoamento da eficácia, da eficiência e da efetividade da DESO, com foco na melhoria dos serviços prestados aos cidadãos.

Entretanto, o caminho adotado pelo governo foi a concessão dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário à iniciativa privada. Para seus críticos, essa medida não enfrentou as causas estruturais da crise hídrica, relacionadas à expansão da demanda, ao subinvestimento em infraestrutura de captação, a distribuição de água e à necessidade de planejamento integrado de longo prazo.

Essa discussão torna-se ainda mais relevante quando se observa a evolução da demanda por água em Sergipe. As principais captações do estado concentram-se no rio São Francisco, com sistemas implantados em diferentes períodos, sobretudo na década de 1980, nos municípios de Canindé de São Francisco, Telha/Propriá e Porto da Folha. Paralelamente, a população sergipana passou de aproximadamente 1,2 milhão de habitantes, em 1982, para cerca de 2,3 milhões em 2026, aumentando significativamente o consumo residencial, industrial, comercial e agrícola e pressionando a infraestrutura existente. Nesse contexto, a crise hídrica não pode ser compreendida apenas como um problema operacional ou administrativo. Trata-se de um desafio estratégico para o desenvolvimento econômico e social do estado, que exige planejamento territorial, investimentos públicos permanentes e políticas integradas de segurança hídrica capazes de responder às necessidades das próximas décadas.

É nesse cenário que ganha importância a proposta de Valmir de Francisquinho de reavaliar o atual modelo de gestão do saneamento, incluindo a possibilidade de revisão do contrato de concessão e a reestatização da DESO, tema que passou a integrar o debate público durante o processo eleitoral de 2026. Ao mesmo tempo, torna-se oportuno retomar o debate sobre a construção do Canal de Xingó, empreendimento que poderá representar uma solução estruturante para ampliar a segurança hídrica de Sergipe. A proposta consiste em aproveitar de forma mais eficiente a disponibilidade hídrica do rio São Francisco por meio da utilização das estruturas de captação existentes na região da Usina Hidrelétrica de Xingó, ampliando a oferta de água para abastecimento humano, irrigação, desenvolvimento industrial e fortalecimento das atividades econômicas do interior do estado. Mais do que uma obra de infraestrutura, o Canal de Xingó pode constituir um projeto de desenvolvimento regional, capaz de estimular a produção agrícola, fortalecer a segurança alimentar, atrair novos investimentos, reduzir desigualdades territoriais e ampliar a resiliência do estado diante dos efeitos das mudanças climáticas.

Para que esse projeto se torne realidade, será indispensável a articulação entre o Governo do Estado, o Governo Federal, os municípios, a bancada parlamentar e os diversos setores da sociedade. A construção de uma política hídrica consistente exige planejamento de curto, médio e longo prazo, investimentos contínuos e uma visão estratégica que compreenda a água não apenas como um serviço público, mas como um patrimônio essencial ao desenvolvimento sustentável e à qualidade de vida dos sergipanos.

Em um estado com menor extensão territorial do Brasil cuja economia e bem-estar dependem diretamente da disponibilidade de água, o debate sobre a reestruturação da DESO e a implantação do Canal de Xingó transcende disputas políticas. Trata-se de discutir qual modelo de gestão e quais investimentos serão capazes de garantir segurança hídrica, crescimento econômico e desenvolvimento sustentável para Sergipe nas próximas décadas. Certamente, se afastando do problema e entregando a iniciativa privada a resolução da crise hídrica, evidentemente, não é o melhor caminho implementado pelo governo do estado de Sergipe.

Prof. Marcelo Mendes

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