Olá, minha gente, tudo bem? Feliz 2026. Este é o primeiro texto do ano e eu queria muito começar falando de esperança, renovação, novos ciclos. Mas a realidade fez questão de me puxar pela gola. Tem coisa atravessada aqui na garganta. Não é espinha de peixe, é hipocrisia mesmo. Daquelas espessas, difíceis de engolir e impossíveis de fingir que não estão ali.
Vivemos a era de ouro da indignação seletiva. Um fenômeno belíssimo. Uma obra-prima da ginástica moral. A militância contemporânea grita “fascismo” com megafone importado, bateria carregada e indignação em HD, mas entra em modo avião quando a opressão não vem com sotaque americano. Não é falta de Wi-Fi. É falta de vergonha.
No Irã, mulheres queimam véus, enfrentam um regime teocrático que mistura religião, porrada e paranoia institucional. Apanham, são presas, somem do mapa. Literalmente evaporam. E a esquerda global, sempre tão preocupada com símbolos, faz o quê? Nada. Silêncio. Talvez porque o opressor não use terno do Pentágono, não coma hambúrguer e não fale inglês. O patriarcado, aparentemente, só incomoda quando vem com legenda em inglês.
Quando Vladimir Putin invade a Ucrânia, o debate vira quase uma mesa espírita. Quem sabe a culpa não é da própria Ucrânia? Afinal, quem mandou querer existir ao lado de um autocrata com complexo imperial e arsenal nuclear? Existir é uma ousadia tremenda hoje em dia.
Já quando terroristas do Hamas massacram civis israelenses, aí a militância acorda. Em estado de alerta máximo. Protestos surgem mais rápido que trend de dancinha. Cartazes criativos, slogans ensaiados, indignação coreografada. Tudo muito bonito, tudo muito organizado. Parece até lançamento de coleção. Agora, quando mulheres iranianas enfrentam o chicote do Estado religioso, a turma do “meu corpo, minhas regras” sofre um travamento cervical coletivo. Olhar para o Irã dá torcicolo ideológico. Dói virar o pescoço quando a narrativa não ajuda.
Essa acrobacia moral não é acidente. É herança direta de um antiamericanismo fossilizado da Guerra Fria, combinado com um relativismo cultural que relativiza tudo, menos o Ocidente. Se os Estados Unidos são o vilão oficial da história, então qualquer coisa que os contrarie vira automaticamente resistência. Mesmo que venha de ditadores, aiatolás ou teocracias que tratam mulheres como móveis. A lógica é simples. Se o inimigo do meu inimigo oprime, paciência. Chama de contexto cultural e segue o baile. É a hipocrisia premium, versão gourmet.
E enquanto o mundo faz esse teatro, o Brasil não perde a chance de protagonizar. Aqui a moralidade anda de muleta. No Supremo Tribunal Federal, parentes de ministros descobrem, por puro acaso cósmico, que seus escritórios ficaram mais concorridos depois da posse dos familiares. Deve ser o feng shui do poder. Coincidência, claro. No mundo encantado do juridiquês, clientes escolhem advogados apenas pela competência técnica. Jamais pela proximidade com quem decide. O aumento milagroso de processos vira fenômeno estatístico. Daqueles que dispensam explicação e bom senso.
Não é ilegal, dizem. Pode até não ser. Mas é imoral com uma elegância tão refinada que faria qualquer manual de ética pedir exoneração. Não dá cadeia, mas dá vergonha. Ou deveria dar.
A situação fica ainda mais charmosa quando ministros passeiam em jatinhos de empresários interessados em processos, participam de eventos patrocinados por quem tem causas na Corte e resistem bravamente à ideia de um código de conduta. Transparência é essencial, desde que seja aplicada aos outros. A credibilidade do Judiciário vai sendo corroída aos poucos, enquanto se pede fé cega da população. E fé cega, convenhamos, combina mais com religião do que com República.
Nesse caldo ralo de coerência, a democracia vai ficando cansada. Não morre de golpe. Morre de tédio. Morre quando o eleitor percebe que votar parece não mudar nada, que as instituições falam difícil e entregam pouco, e que o discurso é sempre maior que o resultado. Autoritários entendem isso perfeitamente. Vendem eficiência, prometem ordem e oferecem atalhos. Democratas, muitas vezes, parecem mais preocupados em acertar o pronome do que em resolver o problema.
Some a isso desigualdade persistente, tecnologia concentradora, crise climática, população envelhecendo. O resultado é um vazio. E vazio político nunca fica vazio. Alguém ocupa. Geralmente alguém que não gosta muito de eleições. E como se tudo isso já não bastasse, investidores entenderam o espírito do tempo antes dos diplomatas. Tratados internacionais viraram sugestões educadas, fronteiras jurídicas evaporaram e o dinheiro correu para onde sempre corre quando a racionalidade sai da sala. A indústria bélica. A guerra pode não ter vencedores morais, mas sempre encontra ganhadores financeiros. Eles não usam uniforme. Usam planilha.
No fim, o cenário é esse. Uma esquerda que escolhe quais opressões merecem protesto. Um Judiciário que pede confiança enquanto testa os limites da ética. Democracias que prometem mundos e fundos e entregam boletos. Um mercado que aposta no pior porque já aprendeu que ele costuma se repetir. Tudo embalado por hashtags engajadas, discursos inflamados e uma indignação tão seletiva que deveria ser patenteada. A grande pergunta não é mais “como chegamos aqui?”. É “como ainda conseguimos fingir surpresa?”. Porque hipocrisia, minha gente, essa já virou política pública não declarada




