A caça ao pato e a outras aves aquáticas acompanha a história da humanidade desde os tempos pré-históricos. Com o avanço tecnológico, especialmente das armas de fogo, essa prática deixou de ser apenas um meio de obtenção de alimento para tornar-se também uma atividade recreativa em diversos países. Nos Estados Unidos, por exemplo, a caça ao pato consolidou-se como tradição cultural durante os períodos de migração das aves, sendo atualmente submetida a rigorosas normas de preservação ambiental.
Em Sergipe, entretanto, a expressão “Temporada de Caça ao Pato” assume um significado essencialmente político. A metáfora faz referência à percepção, compartilhada por parte da sociedade, de que determinados acontecimentos jurídicos e políticos tendem a ganhar maior intensidade justamente nos períodos que antecedem as eleições, especialmente quando envolvem lideranças com forte competitividade eleitoral.
Na avaliação de seus apoiadores, esse fenômeno teria se repetido em diferentes momentos da política sergipana, notadamente nos pleitos de 2022, 2024 e, novamente, em 2026. A coincidência temporal entre decisões judiciais, intensificação da cobertura midiática e reorganização das forças políticas alimenta o debate público sobre os limites da judicialização da política e seus possíveis reflexos sobre o processo democrático.
O episódio mais emblemático ocorreu durante as eleições estaduais de 2022. Em 8 de setembro daquele ano, o Tribunal Regional Eleitoral de Sergipe declarou a inelegibilidade de Valmir de Francisquinho, entendimento posteriormente mantido pelo Tribunal Superior Eleitoral no fim do mesmo mês. As eleições ocorreram em 2 e 30 de outubro. Contudo, em 13 de outubro de 2022, o próprio Tribunal Superior Eleitoral, por seis votos a um, reconheceu sua elegibilidade.
Independentemente das interpretações jurídicas acerca do caso, a sequência dos acontecimentos provocou intenso debate político e jurídico em Sergipe, levantando questionamentos na opinião pública sobre os efeitos do calendário das decisões judiciais em processos eleitorais. Ainda assim, Valmir de Francisquinho obteve expressiva votação, alcançando 457.922 votos, resultado frequentemente citado por seus apoiadores como demonstração de sua força política e do apoio popular.
O cenário volta a despertar discussões em 2026. Após a convenção partidária realizada em 20 de julho e o registro de sua candidatura ao Governo do Estado, uma nova decisão judicial envolvendo o nome de Valmir de Francisquinho voltou a ocupar o centro do debate político. Para seus defensores, a sucessão desses acontecimentos reforça a percepção de que processos judiciais envolvendo determinadas lideranças costumam ganhar protagonismo justamente nos momentos mais sensíveis do calendário eleitoral, influenciando o ambiente político, o comportamento do eleitorado e a dinâmica das alianças partidárias.
É nesse contexto que ressurge a metáfora da “Temporada de Caça ao Pato”. Na leitura de seus apoiadores, não se trata apenas de coincidências processuais, mas da repetição de um padrão que se manifesta sempre que o candidato desponta como favorito nas pesquisas ou amplia sua competitividade eleitoral. Sob essa perspectiva, novos processos surgiriam, antigos casos seriam retomados e o debate público passaria a ser fortemente direcionado para questões judiciais, relegando a segundo plano a discussão de propostas para o futuro de Sergipe.
Ao longo da história, o pato sempre foi uma ave conhecida por sua capacidade de adaptação e resistência diante das mudanças do ambiente. A metáfora permanece pertinente no cenário político sergipano. Para aqueles que apoiam Valmir de Francisquinho, sua trajetória demonstra resiliência diante das adversidades, capacidade de reconstrução política e confiança de que a soberania popular continuará sendo o elemento decisivo nas urnas.
Se a primavera simboliza o renascimento da natureza e o verão impõe novos desafios, a política também atravessa ciclos de adversidade e renovação. Em uma democracia, espera-se que as disputas sejam resolvidas pelo livre exercício do voto, com respeito às instituições, ao devido processo legal e à vontade soberana do eleitor. Afinal, como ensina a sabedoria popular, depois da tempestade sempre pode surgir a bonança.
Prof. Dr. Marcelo Mendes




