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Aída Mascarenhas Campos: quando uma vida inteira se torna patrimônio moral de um Estado

Há perdas que silenciam um ambiente. Outras que interrompem o ritmo de uma cidade. Mas há aquelas que tocam profundamente o espírito de uma sociedade inteira. Assim é a partida de Aída Mascarenhas Campos, um nome que não representa apenas uma trajetória jurídica brilhante, mas um patrimônio humano para Sergipe. Escrevo não apenas como jornalista, mas como contemporânea e amiga de caminhada. Dividi com Aída os corredores da Universidade Federal de Sergipe nos anos em que ainda sonhávamos com o que o Direito poderia ser. Enquanto muitos estudavam para passar em concursos ou planejar carreiras, ela já se movia por vocação. Lembro-me de vê-la, diariamente, com um livro de Direitos Humanos embaixo do braço, como quem carrega uma extensão do próprio coração. Certa vez, ao fim de uma aula, ela me disse: “Bia, a lei é letra. Justiça, não. Justiça é alma.” Ali, percebi que eu estava diante de alguém que jamais se deixaria limitar por formalismos quando seres humanos estavam em jogo.

Sua história é indissociável da construção da dignidade da advocacia sergipana. Conselheira seccional, secretária-geral, vice-presidente da OAB/SE, presidente da Comissão de Direitos Humanos, integrante do Conselho Federal – Aída não apenas ocupou cargos: ela os ressignificou. Onde outros viam funções, ela enxergava missão. Recordo de uma reunião histórica da Comissão de Direitos Humanos, em que havia resistência à entrada de um tema sensível na pauta. Aída, com seu tom firme e olhar afetuoso, disse: “Se a OAB não for refúgio para os vulneráveis, será apenas um prédio com siglas na fachada. E eu não dediquei minha vida a paredes, dediquei a pessoas.” O silêncio que se fez naquele momento ainda ecoa na memória de quem estava presente.

Ela era procuradora autárquica do Estado, atuante na Fundação Renascer, onde transformou processos em possibilidades de redenção para adolescentes em conflito com a lei. Não via infratores: via histórias interrompidas que mereciam recomeços. Em seus mais de 30 anos de advocacia, chegou aos níveis mais altos da representação institucional, mas jamais se afastou do chão humano da profissão. Era admirada pelos colegas, respeitada pelas autoridades e amada por aqueles que encontravam nela uma voz firme e, ao mesmo tempo, acolhedora. Foi homenageada pela OAB com a Medalha Sílvio Romero, não apenas por seus feitos, mas por sua conduta irrepreensível.

Guardo com carinho três lembranças que revelam seu espírito. A primeira, nos tempos da UFS, quando levei um colega tímido para apresentar um projeto acadêmico. Ele desistiu na porta. Aída, com sua delicadeza, disse: “O medo também fala, Bia. Às vezes, fala mais alto que a coragem. Nosso papel é dar voz à coragem.” Ela apresentou o projeto por ele, e ao final o chamou para dividir os aplausos. A segunda, já na OAB, em um debate sobre políticas de inclusão, quando alguém sugeriu que o tema gerava desgaste institucional. Ela respondeu: “O desgaste de lutar por direitos é sempre menor do que a vergonha de tê-los negado.” A terceira, mais íntima, aconteceu durante um café no centro de Aracaju. Ela me contou que sua maior alegria não eram os títulos que conquistou, mas os alunos que inspirou. “Bia,” disse ela, “quando alguém escolhe a ética por minha causa, eu renasço um pouco naquele gesto.”

Aída Mascarenhas Campos partiu aos 64 anos, deixando um vazio impossível de preencher, mas também um legado impossível de apagar. Sua vida foi exemplo de integridade, afeto e coragem cívica. Ela nos ensinou que a verdadeira advocacia não é instrumento de vaidade, mas de transformação social. Sua voz agora se cala, mas sua mensagem permanece viva em cada defesa apresentada com dignidade, em cada causa abraçada com empatia e em cada jovem advogado que ousa colocar o ser humano acima do protocolo.

Hoje, Sergipe não chora apenas uma profissional ilustre. Chora uma alma generosa, uma construtora de pontes, uma guardiã dos direitos humanos. Aída não pertence mais ao tempo presente, pertence à história. E é assim que deve ser lembrada: como uma mulher que elevou a advocacia ao seu grau mais nobre: o de servir à vida, antes de servir à lei.

Respostas de 2

    1. Tive a felicidade de conhecê la no hospital Cirurgia ao final da vida e de ouvir a sua experiência de fé e compromisso com a vida humana. Saudades eterna. Deus a acolha…

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