Brasília virou palco e Sergipe virou plateia atenta. O encontro entre Fábio Mitidieri, Luiz Inácio Lula da Silva e Rogério Carvalho foi vendido nas redes sociais como histórico, estratégico e, claro, salvador. Fotos, sorrisos, anúncios e aquela velha trilha sonora de desenvolvimento. A chapa foi oficializada, o discurso alinhado e o roteiro seguido com perfeição. O problema é que o sergipano já viu esse filme antes, muda o elenco, mas o enredo continua perigosamente parecido.
Nas redes, a repercussão veio dividida. De um lado, entusiasmo com a união, com promessa de obras, com PAC, ponte, adutora e regularização fundiária. Do outro, o bom e velho ceticismo nordestino, aquele que olha para Brasília e pergunta, isso sai do papel quando. Porque anunciar obra a menos de um ano de fim de ciclo administrativo tem um cheiro conhecido, não de concreto fresco, mas de tinta eleitoral recém passada. E o povo já aprendeu a diferenciar projeto de promessa.
O pacote apresentado é grande, bonito e bem embalado. Ponte Aracaju Barra, complexo viário, ações sociais, regularização de terras. Tudo necessário, tudo importante. Mas o tempo virou o principal adversário dessa narrativa. Com poucos meses efetivos de execução, a pergunta que ecoa nas conversas de rua e nas redes é simples, isso é entrega ou é vitrine. Porque obra anunciada em reta final costuma inaugurar mais discurso do que resultado. Lembrem da BR 101 que nunca termina.
E enquanto a política se organiza em Brasília, Sergipe observa as contradições locais. A aliança entre Mitidieri e Rogério pode até ter sido selada no Planalto, mas nem dentro de casa ela é consenso. O próprio pai do governador, Luiz Mitidieri, figura conhecida e respeitada, já deixou claro que não vota com Rogério Carvalho eleitoral. Em política, quando a divergência começa dentro da família, o problema não é ideológico, é estrutural.
E aí surgem os bastidores que dão tempero à história. Conversas sobre espaços de poder, possíveis nomes para secretarias, incluindo a ventilada ida de Candisse Mattos, hoje Carvalho, para a pasta do Meio Ambiente, começam a circular como moeda de ajuste dessa união. Nada confirmado oficialmente, tudo muito “nos bastidores”, mas suficiente para alimentar o velho roteiro de composição política, onde cada apoio vem com seu pacote.
No fim, o encontro produziu imagem, manchete e discurso. Trouxe promessas, alinhamento e uma tentativa clara de consolidar um bloco forte para as eleições. Mas também deixou no ar aquela sensação conhecida do eleitor sergipano, a de que entre o anúncio e a entrega existe um caminho longo, cheio de curvas e, muitas vezes, sem asfalto. E enquanto Brasília celebra a união, Sergipe segue fazendo o que aprendeu a fazer melhor, esperar, desconfiar e cobrar.




