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Eunice Paiva e Bia Muniz: Duas Mulheres, Dois Carnavais e um Só Destino – Viver

Eunice Paiva, no filme Ainda Estou Aqui, sempre foi cercada pelo amor e carinho dos filhos, mas isso não a impediu de sentir o peso da invisibilidade além das paredes de casa. Eu? Bom, também sou mãe, amada pelas minhas filhas, mas, agora separada e com elas viajando com o pai, me vi diante de uma nova realidade: um carnaval só meu. Não foi uma troca, foi um momento de redescoberta. E se Eunice percebeu que o mundo tentava deixá-la de lado, eu senti algo parecido ao entrar no Stones e ser recebida com um “tia” inesperado. Mas, assim como ela, me recuso a ser figurante da minha própria história.

Sim, TIA. Eunice foi silenciada por um sistema que tenta empurrar mulheres maduras para fora da cena principal. Eu fui silenciada por um segurança que me chamou de tia e por um garçom que, no fim da noite, praticamente me entregou um cartão fidelidade da solidão. Mas Eunice não desistiu, e eu também não. Levantei o queixo, entrei no Stones e fiz o que qualquer protagonista faria: tentei brilhar. E brilhei, por exatos cinco minutos e um gin tônica.

Foi então que ele apareceu. Alto, moreno, um verdadeiro galã de filme francês. Trocamos olhares, dançamos, e eu pensei: “Pronto, Bia, você venceu na vida.” Mas como num roteiro previsível, a mocinha jovem e impecável entrou em cena e o levou sem precisar nem de uma fala. A câmera cortou para mim, segurando um copo vazio e um restinho de dignidade.

Fim da noite: Sandrinho, o garçom, praticamente me carregando para o carro. “– Tia Bia, a senhora tenha mais cuidado ao sair sozinha daqui”. Fade out.

Eunice, assim como eu, precisou de um empurrão para lembrar quem ela era. Ela se olhou no espelho e se recusou a acreditar que a vida dela acabava ali. Eu fiz o mesmo. Mas antes, precisei de um remédio para dor de cabeça.

Então, o Oscar. O vinho. A Fernanda Torres brilhando na tela e eu percebendo que não estava sozinha. Porque, vejam bem, Eunice Paiva não era uma mulher esquecida. Ela era uma mulher que o mundo tentava esquecer, mas que se recusava a sumir. E eu? Bom, eu não ia passar meu carnaval sentada no sofá, discutindo se o vestido da Margot Robbie estava à altura do Oscar.

Eu e minha amiga nos olhamos e, num impulso regado a vinho, decidimos: – E se a gente fosse para Salvador curtir os últimos dias de folia? Se sexta-feira foi minha queda, segunda-feira foi minha redenção.

O avião pousou e eu senti o calor de Salvador. Na pele e na alma. Eunice Paiva, em sua jornada, encontrou forças para seguir em frente, mesmo quando a sociedade queria que ela se conformasse. E eu? Encontrei a força no meio da multidão, no som do axé, no rebolado que não pede permissão.

Eunicenunca precisou que o mundo dissesse que ela ainda importava. Ela soube disso sozinha. E eu, entre um gole de cerveja e um sorriso para um baiano charmoso, percebi o mesmo. Não sou um móvel esquecido. Não sou figurante. Ainda estou aqui. E, se me perguntarem se esse carnaval foi um drama ou uma comédia, eu respondo: Foi um Oscar.

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