Augusto Cury entrou no estúdio da Globo com uma vantagem rara: não parecia mais um político produzido na mesma fábrica. Médico, escritor e empresário, falou de inteligência artificial, robótica, telemedicina, empreendedorismo e modernização do Estado. Enquanto parte dos candidatos ainda discute o século passado como se tivesse perdido o ônibus da história, Cury tentou vender passagem para o futuro. O problema surgiu quando Renata Vasconcellos e César Tralli pediram o itinerário, o preço da passagem e quem pagaria o combustível.
Na economia, Cury prometeu reduzir ministérios, revisar milhares de cargos, auditar contratos e financiar milhões de pequenos negócios. O cardápio era generoso. Faltaram a cozinha, os ingredientes e a conta. Enxugar a máquina enquanto cria estruturas para segurança, inteligência artificial e robótica pode ser possível, mas exige demonstrar quais órgãos desaparecerão, quanto será economizado e de onde virá o dinheiro. Presidência não funciona apenas com frases inspiradoras. Em algum momento, o sonho precisa conhecer a planilha.
Cury, porém, levantou questões relevantes. Acertou ao discutir os danos provocados pelas bets, a aplicação da inteligência artificial no governo, o uso da tecnologia na proteção das mulheres e a expansão segura da telemedicina. A ideia de empregar drones no combate à violência virou piada nas redes, mas não merece ser descartada antes de ser tecnicamente examinada. O exagero esteve em apresentar a tecnologia como um canivete suíço capaz de cortar gastos, proteger vítimas, reorganizar o SUS e ainda chegar a tempo de salvar o orçamento.
A entrevista também revelou a distância entre o Cury do palco e o Cury do contraditório. O escritor domina metáforas e frases de impacto, mas demonstrou incômodo quando pressionado sobre telemedicina e possíveis conflitos com atividades privadas. Ao lembrar a Tralli que era médico, pareceu dizer que a pergunta deveria respeitar o currículo. Não funciona assim. Presidente é questionado por Congresso, imprensa, oposição, mercado e Judiciário. Quem vende inteligência emocional precisa garantir que o produto funcione também sob as luzes da Globo.
O saldo foi positivo, mas incompleto. Cury não saiu como aventureiro, nem como estadista pronto para receber a faixa presidencial antes do segundo turno. Mostrou repertório, visão de futuro e coragem para pautar temas ignorados pela política tradicional. Também revelou dificuldade para transformar conceitos em políticas públicas com custos, prazos e base legal. Entre escrever uma boa ideia e governar o Brasil existem orçamento, Congresso, burocracia e 200 milhões de especialistas em reclamar. Cury apresentou o arquiteto. Agora precisa provar que também sabe levantar a obra.




