Sergipe entrou num momento tão teatral que já nem sei se estou escrevendo sobre política ou sobre o ensaio de um musical sertanejo. E tudo começa com ele, o nosso showrunner da confusão: Augusto Bezerra, que decidiu transformar o Estado numa mistura de The Voice com sessão da Câmara. Sim, Augusto não quer só lançar candidatos. Ele quer fazer um The Voice Sergipe. A diferença é que na TV o jurado aperta o botão pela voz. No dele, basta o candidato ter um parente famoso.
No palco imaginário, Augusto gira na cadeira dourada da AB Consultoria toda vez que descobre um irmão de cantor, primo de influenciador ou sobrinho de alguém com views no TikTok. A cadeira gira e ele grita “EU QUERO VOCÊ NO MEU TIME”. Se tiver sobrenome Camargo, ele já manda buscar a faixa de deputado federal.
Foi assim com o Fiote, vendedor de castanha e pai de Natanzinho, que entrou no palco embalado por “No Dia em que Eu Saí de Casa”. Bastou mencionar o parentesco e Augusto quase quebrou o botão de empolgação. Eu apenas tomei um gole do meu aperol e pensei “bom, pelo menos ele canta com ternura”.
Mas o grande momento foi Welligton Camargo, direto do clã de Zezé e Luciano. Augusto ouviu “irmão do Zezé”, saltou da cadeira e quase fez o set girar junto. Para ele, encontrar um Camargo disponível equivale a descobrir petróleo. Théo Santana ficou preocupado, Fabiano Oliveira quase cancelou shows, porque se Augusto continuar apertando botão para cada parente de cantor, não sobra artista para subir ao palco em Sergipe.
No bar, a piada virou diagnóstico: Fábio Lima deputado federal ao som de “Gosto Muito de Você, Leãozinho”. Paulo Lobo senador com “Ruas de Ará”. Mestrinho governador embalado por “Medo Bobo”. Chico Queiroga dividindo Senado com Lobo ao som de “Cheiro da Terra”. Suyan de vice-governadora porque alguém cantou “Pra Mudar Minha Vida” e colou. Mas aqui vale dizer: músicos precisam de representação, claro, mas de gente séria, que entenda cultura, não de elenco improvisado por parentesco. Representação não é karaokê. É política cultural. Por isso Natanzinho comprou um avião e voou para longe de Augusto, porque até ele sabe que turbulência política não tem cinto que segure.
E como se não bastasse, quem me ligou querendo ser deputado estadual foi Chico Chico, sempre com sua camisa do Vasco. Argumento dele: como o time perde muito, disputar estadual parece mais fácil do que esperar vitória no campeonato. Eu apenas respirei fundo, coloquei “Recado” para tocar e aceitei que a política sergipana é mais emocionante que a Série B.
Enquanto isso, existe um grupo que merece aplauso: os Humildes. Tão humildes que preferem ficar longe dessa disputa e trabalhar nos bastidores, afinando políticos, porque se depender de alguns, nem playback resolve. E para provar que talento fala mais alto que sobrenome, sábado eles se apresentam na Praia da Atalaia, num show que lembra o Velho Los Gatos no Bar D’Mainha Beach Club. Vale cada minuto.
Os empresários do entretenimento estão exaustos. “Se Augusto lançar mais um cantor, eu fecho a casa de show”, disse um produtor imaginário, porém bastante plausível. A política está sequestrando a música. Do jeito que vai, 2026 terá mais candidato do que artista disponível no São João. Já imagino um finlandês cantando “É o Amor” no Forró Caju só para preencher agenda.
E o mais impressionante é que Augusto acha que está inovando. Agora posa de Carlo Ancelotti da política, falando em “treinar candidatos” como quem convoca seleção. Falta só aparecer de prancheta dizendo “Fioti joga de meia, Welligton de ponta direita, e o reforço da próxima temporada é um sobrinho do Leonardo”. E quando perguntarem sua estratégia, ele certamente dirá: “é só chamar parente de famoso”.
Sergipe, cuidado. The Voice é ótimo na TV, mas no Congresso ninguém canta. E quem desafina, desafina no orçamento. Augusto quer fazer show. Mas política exige partitura. O povo precisa lembrar que deputado não ganha no gogó. Ganha no preparo. No estudo. Na lei. Mas que é divertido assistir Augusto transformar o Estado no maior reality show político do país… isso é.




