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Bell no palco, ciúme no trio e a política dançando axé em Dores

Nossa Senhora das Dores viveu mais uma daquelas semanas em que a política deixou de usar paletó e resolveu subir no palco. A Micarense 2026, que já nasceu grande com nomes como Bell Marques, Xanddy Harmonia, Igor Kannário e Edson Gomes, acabou virando também palco de um velho ritmo sergipano: o forró da divergência política. A prefeita Ianna Porto foi às redes defender a festa, explicar custos e responder críticas sobre a escolha de Bell Marques cantar no palco e não no trio. Segundo ela, Bell no palco custou cerca de R$ 800 mil, enquanto no trio sairia por algo em torno de R$ 1,1 milhão, uma diferença de R$ 300 mil que, convenhamos, paga muita carne de sol, muito prato no Bar da Traíra e ainda sobra troco para o cafezinho da praça. A programação oficial realmente confirmou Bell como uma das principais atrações da Micarense, reforçando o peso do evento para a economia local.

A prefeita se defendeu com firmeza e usou um argumento que, politicamente, faz sentido: festa não é vaidade pessoal, é circulação de dinheiro. E nisso ela não está errada. Em cidade do interior, micareta não é só glitter e abadá, é o vendedor de espetinho, o dono da pousada, o ambulante, o comércio respirando depois de meses de aperto. Quando ela diz que desmerecer a festa é desmerecer o povo, há uma verdade econômica aí. Agora, política não vive só de razão, vive também de percepção. E quando o povo escuta “Bell Marques” já imagina automaticamente o homem em cima do trio cantando “Voa Voa” e fazendo até vereador esquecer a prestação de contas. Colocar Bell no palco foi tecnicamente defensável, mas emocionalmente foi quase como servir feijoada sem farofa: sustenta, mas o povo reclama.

E foi justamente aí que entrou o ex-prefeito Fernando Lila, naquele papel clássico do ex que diz “não estou criticando, só estou observando”. E observar, em política, às vezes dói mais que oposição oficial. Fernando trouxe para o debate aquilo que muita gente cochichava na calçada: será que o investimento foi o melhor possível? Será que o brilho compensou o custo? E sejamos honestos, essa preocupação com o dinheiro público não pode ser tratada como birra pessoal. Quem já administrou sabe que cada nota tem CPF e memória longa. Criticar gasto público não é ser inimigo da festa; às vezes é justamente querer que a festa continue existindo sem deixar a conta no colo do povo depois. Bell Marques já cantava que “amor bacana, amor que vale, é aquele que não faz sofrer”. O eleitor pensa igual com prefeitura.

Dores, que eu conheço bem e onde sempre deixei um pedaço da saudade entre a famosa carne do sol do restaurante de Tonho da Copa e aquelas conversas demoradas de calçada que só o interior sabe oferecer, merece festa e merece transparência. Tonho da Copa, ex-prefeito marcante de Nossa Senhora das Dores, era dessas figuras que não passavam despercebidas: homem de presença, de história e de memória viva na cidade, daqueles que até hoje são lembrados com respeito e boas histórias entre um almoço e outro. Sua carne do sol virou quase patrimônio afetivo da cidade, daquelas que fazem qualquer um voltar só pelo cheiro. 

E é justamente por isso que Dores não precisa escolher entre alegria e responsabilidade, porque uma cidade forte sabe fazer festa sem perder a consciência. O problema começa quando a política vira ciúme de camarote e cada um quer ser o dono do abadá moral da cidade. A prefeita acertou ao explicar, Fernando acertou ao provocar o debate, e o povo acertou mais ainda ao cobrar. Porque, no fim das contas, a verdadeira atração principal não era Bell Marques, era a velha disputa entre aplauso e fiscalização. E essa, meu amigo, essa nunca sai do trio, só muda a música.

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