Num cenário político onde a letargia muitas vezes prevalece, a manhã desta quinta-feira (29) na Câmara Municipal de Aracaju provou que há dias em que o plenário se transforma – não em palco de discursos protocolares, mas em verdadeira arena de ideias, compromissos e embates propositivos.
Longe do clichê burocrático que costuma permear o pequeno expediente, os vereadores protagonizaram uma sessão marcada por posicionamentos firmes, críticas construtivas, reconhecimento de boas práticas e, sobretudo, um fio condutor de responsabilidade pública.
O que se viu foi um retrato da política viva, com pitadas de humor, doses de indignação, lampejos de sensibilidade social e a presença constante de uma consciência institucional que, ainda que divergente nos caminhos, convergiu no propósito: dialogar com a cidade e por ela agir.
Entre quadrilhas juninas, concursos públicos, praças abandonadas e futebol feminino, Aracaju ganhou – mesmo que por algumas horas – o protagonismo que merece. E assim, com alma e lucidez, abrimos a cortina para o que foi o pequeno expediente que, de tão simbólico, se agigantou.
Selma França (PSD) abriu os trabalhos com uma fala que misturava sensibilidade social e orgulho institucional. A vereadora exaltou o governo estadual pelos festejos juninos e, com o mesmo carinho que se prepara canjica no São João, destacou a atenção aos catadores e suas crianças. “Eles terão um espaço bonito, digno, feito com coração”, disse Selma, como quem coloca uma estrela no chapéu de palha do cuidado social.
Sargento Byron (MDB) trouxe as botas da realidade para o plenário. Foi direto: infraestrutura, saúde e manutenção das praças. Tudo isso com o bom e velho “olho no olho” com a prefeita Emília Corrêa. E ainda lançou uma verdade como quem solta um rojão no São Pedro: “Problema de décadas não se resolve em meses, mas temos que carregar a bandeira da comunidade”.
Vinícius Porto (PDT), com o microfone firme, jogou luz sobre a retirada do famigerado “jogo do Tigrinho” da Lotese. Um gol de placa contra a jogatina predatória. E, na mesma toada, valorizou a prefeita por uma gestão “sem gabinete de vidro”, segundo ele, ela caminha pelas secretarias como quem conhece cada corredor da cidade.
Iran Barbosa (PSOL) trouxe o bisturi jurídico e cravou: a cláusula que impedia candidatos com mais de 50 anos de concorrer a cargos públicos está com os dias contados. Foi cirúrgico: “Revogar esse artigo é uma cirurgia de justiça”. E, como bom professor, cobrou urgência na tramitação com mais pressão que café de plantão.
Isac Silveira (União Brasil) bateu na tecla da saúde pública com a precisão de quem sabe que, sem concurso, não há futuro. Criticou o modelo de contratação por CNPJ e defendeu o concurso público como vacina contra a descontinuidade dos serviços. “Saúde não pode ser um favor, tem que ser política pública”, sentenciou.
Lúcio Flávio (PL) aproveitou para lembrar que prestação de contas também é festa — quando feita no prazo. A secretária Débora vai mostrar o que fez com os recursos da saúde, e Lúcio parabenizou a prefeita por respeitar o rito e, claro, a Câmara.
Milton Dantas (PSD) homenageou o presidente do Confiança e exaltou a histórica vitória do Juventude Feminino na Copa do Brasil. “Estamos organizando e avançando. Futebol feminino está virando camisa 10 em Sergipe”, vibrou, já convocando os times dos bairros para a Copa das Comunidades.
Professora Sonia Meire (PSOL) foi pedagógica e crítica. Comemorou a chegada do projeto que destrava o concurso público e alfinetou a exigência do CREF para professores de educação física. “Educação não é mercado. É direito. E direito não cobra anuidade”.
A manhã terminou com o sentimento de que, entre um projeto de lei e uma réplica política, a Câmara se mostra viva, pulsante — às vezes confusa, mas sempre necessária. E no embalo do forró que já começa a esquentar a capital, fica o aviso: quando o povo ocupa, até o pequeno expediente vira grande




