A Receita Federal apreendeu no Porto de Santos, no dia 20 de maio, um contêiner com 22 toneladas de materiais esportivos falsificados, cerca de 120 mil camisas de seleções e clubes. Tinha Brasil, Argentina, Portugal, Alemanha, Flamengo, Santos, Botafogo, Atlético Mineiro e outros uniformes que mexem com o coração do torcedor. Nos últimos três meses, a Receita já reteve mais de meio milhão de camisas falsificadas no mesmo porto. É camisa demais para pouco armário e paixão demais sendo explorada por um mercado ilegal milionário.
A falsificação é crime e não dá para passar pano. A Lei de Propriedade Industrial pune quem reproduz marca registrada sem autorização e também quem importa, vende, oferece ou mantém em estoque produto com marca falsificada. O problema é que, no Brasil, a lei chega forte no camelô, no atravessador e na carga ilegal, mas o preço da camisa oficial também chega forte no peito do torcedor. A própria loja oficial da Nike mostra modelos da Seleção Brasileira 2026/27 na casa dos R$ 399,99, valor que para muita gente é quase a compra do mês, não uma roupa para assistir jogo no sofá.
Aí entra o dilema brasileiro, inclusive do sergipano: o cidadão quer vestir a camisa do time, mas não quer vender um rim para torcer no domingo. Quando a oficial custa perto de R$ 400 e a falsificada aparece na internet por R$ 70, R$ 80 ou R$ 100, muita gente fecha os olhos, aperta o botão de comprar e finge que o escudo veio abençoado pela fábrica. Não é correto, mas é compreensível dentro de um país onde imposto, margem, licenciamento e custo de varejo transformaram camisa de futebol em peça de boutique. Segundo o Impostômetro, a tributação aproximada de camisa e camiseta no Brasil chega a 34,58%.
No fim, a apreensão em Santos escancara duas verdades ao mesmo tempo. A primeira: falsificação alimenta crime, prejudica empresas, derruba arrecadação e engana consumidor. A segunda: camisa oficial virou cara demais para o torcedor comum. O Brasil precisa combater a pirataria, sim, mas também precisa perguntar por que a paixão popular virou produto de luxo. Porque futebol nasceu no povo, cresceu na arquibancada e mora no coração da periferia. Se a camisa oficial continuar custando quase um salário emocional, a falsificada vai continuar vendendo como água em dia de clássico.




