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O Cidadania em xeque: partido dividido, futuro incerto

A política sergipana sempre foi pródiga em alianças improváveis, mas raramente se viu um partido tão tensionado como o Cidadania neste momento. O que deveria ser uma legenda coesa, capaz de apresentar um projeto consistente para o eleitorado, se transformou em um campo de disputa interna marcado por contradições, hesitações e interesses divergentes. O resultado é um partido sem direção clara, com lideranças que apontam para caminhos distintos e um futuro que depende de decisões individuais mais do que de um projeto coletivo.

O deputado estadual Georgeo Passos representa a ala oposicionista mais firme. Filho do ex-deputado Antônio Passos, conhecido por sua postura de situação, Georgeo trilhou o caminho inverso: construiu sua carreira como voz da oposição. Reconhecido por sua presença ativa na Assembleia Legislativa e por posições claras, declarou de forma contundente que não estará no palanque do governador Fábio Mitidieri. É uma posição coerente com sua trajetória, mas que o coloca em rota de colisão direta com a federação recém-formada com o PSB, que tende a se alinhar integralmente à base governista.

Na outra ponta está a deputada estadual Kitty Lima, que retornou ao Legislativo como suplente e logo se aproximou do governo. Assumiu uma secretaria estadual, conquistou espaço na base de Mitidieri e, desde então, se consolidou como aliada do governador. No entanto, Kitty enfrenta enormes desafios de reeleição. Seu nicho original, a defesa dos animais, já não é exclusividade sua no cenário político, e os desgastes acumulados tornam seu futuro eleitoral incerto. Ainda assim, sua posição pró-governo fortalece a imagem de um Cidadania cada vez mais vinculado ao Palácio dos Despachos.

Até pouco tempo, o pêndulo decisivo parecia estar nas mãos de Ricardo Marques, atual vice-prefeito de Aracaju e secretário municipal de Comunicação. Ricardo transita com desenvoltura entre diferentes grupos políticos, mantém amizade com Mitidieri e já recebeu a bênção do presidente nacional do Cidadania, Comte Bittencourt, que defendia sua permanência na sigla. Mas a federação com o PSB mudou completamente o cenário. Ricardo, que já jurou fidelidade à prefeita Emília Corrêa, dificilmente permanecerá em um partido que se encaminha para o palanque governista. A tendência é que ele deixe o Cidadania, movimento que pode ser acompanhado por Georgeo Passos.

Nesse novo arranjo, o peso político dentro da federação tende a se deslocar para o PSB, cuja presidência estadual está nas mãos de Cláudio Mitidieri, primo do governador e pré-candidato forte a deputado federal. Com isso, o Cidadania corre o risco de se tornar coadjuvante, esvaziado de suas principais lideranças e praticamente representado apenas por Kitty Lima.

Esse cenário reforça o dilema: o Cidadania, que deveria ser instrumento de convergência e representação cidadã, hoje é um partido rachado e em vias de perder protagonismo. O alinhamento automático com o PSB e com o governo pode garantir sobrevida institucional, mas à custa de sua identidade e da pluralidade interna.

O fato é que um partido dividido dificilmente conquista a confiança do eleitorado. E a cidadania política que dá nome à sigla precisa, antes de mais nada, ser praticada internamente. Do contrário, o eleitor sergipano perceberá que, por trás do discurso de renovação, o que existe é apenas mais um jogo de conveniências e um partido que, sem resolver suas contradições, caminha para ser reduzido a satélite dentro da federação.

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