O bordão “congresso inimigo do povo” voltou a ecoar nas redes e nos plenários, e Sergipe não ficou de fora.
A frase, popularizada nos últimos dias após as críticas ao parlamento federal por resistir a pautas do Executivo, virou combustível para debates acalorados — e também para discursos oportunistas.
Em um estado de base política conservadora, onde o eleitor gosta de “olhar no olho do deputado” e sentir se há “verdade no discurso”, o novo slogan encontra terreno fértil. Mas a pergunta é outra: quem realmente acredita nisso e quem está apenas surfando na onda?
O discurso que se vende fácil
Chamar o Congresso de “inimigo do povo” é uma jogada velha com roupa nova.
Funciona porque é simples, emocional e alimenta o sentimento de “nós contra eles”. Em Sergipe, onde o eleitor acompanha de perto o que se passa na capital, mas sente na pele os efeitos da política em Brasília, a frase ganha força de desabafo.
Alguns deputados estaduais já começaram a repetir versões mais “regionais” desse discurso:
“Brasília não entende o Nordeste”, “o Congresso trava o progresso”, “a política nacional virou teatro”.
Tudo soa familiar, tudo soa popular — mas quase nada se sustenta em dados.
Deputados que endossam (e os que se esquivam)
Na Assembleia Legislativa de Sergipe (Alese), o tema tem dividido os bastidores.
Deputados de oposição veem na crítica ao Congresso uma forma de desgastar o governo federal e acenar para o eleitorado descontente com a política tradicional.
Já os governistas tentam se equilibrar: reconhecem o desgaste da classe política, mas evitam incendiar o debate.
Nos corredores, há quem admita que o bordão “pega bem” nas redes.
Em tempos de curtidas e vídeos curtos, um discurso simples e inflamado rende mais que uma explicação sobre orçamento, vetos ou emendas.
Mas há um risco evidente: quanto mais se deslegitima a política, mais se abre espaço para o autoritarismo travestido de indignação.
O eleitor quer “castigar”, mas não quer perder direitos
Entre os eleitores sergipanos, o sentimento é de cansaço.
O cidadão se vê sufocado por promessas quebradas e escândalos repetidos. Ao ouvir “congresso inimigo do povo”, ele acena com a cabeça, como quem diz: “é isso mesmo”.
Mas na prática, é o mesmo eleitor que cobra programas sociais, obras públicas e atendimento médico — tudo isso depende justamente do Congresso que ele rejeita.
A contradição é clara: o eleitor quer castigar o sistema, mas não quer abrir mão do Estado.
O perigo do discurso fácil
Esse tipo de narrativa tem efeito devastador.
Ela mina a confiança nas instituições, simplifica debates complexos e transforma o adversário político em inimigo.
Em Sergipe, onde a polarização já contaminou até os grupos de família e as mesas de bar, o eco desse discurso é forte o bastante para embaralhar as fronteiras entre crítica legítima e antipolítica.
E, convenhamos, muitos políticos sabem disso.
Usam o bordão não por convicção, mas porque ele rende voto.
A política como espetáculo
Enquanto parte da população se indigna, outra parte assiste tudo como quem zapeia um reality show.
Deputados performam indignação, eleitores aplaudem ou vaiam, e o debate público vai virando um roteiro previsível, onde a verdade pouco importa.
No fim, o “inimigo do povo” é sempre o outro — nunca quem grita mais alto.
Convido você a comentar:
Você acha que o Congresso é realmente “inimigo do povo” ou que o discurso virou muleta pra esconder incompetência e populismo?
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Fontes principais:
Assembleia Legislativa de Sergipe (Alese), portais regionais (F5News, Infonet, A8SE), entrevistas públicas e discursos parlamentares recentes.




