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O que une Suzane, Elize e Jussara? O Brasil que assiste tragédia como série

Há algo acontecendo no Brasil que todos veem, mas fingem não enxergar. Os crimes passionais se repetem com a disciplina de uma série renovada automaticamente, e nós, espectadores aplicados, reagimos sempre da mesma forma: indignação de 30 segundos, julgamento instantâneo e aquele scroll apressado que varre qualquer chance de reflexão. O país virou especialista em consumir tragédia como quem aceita os termos de uso sem ler: só clica em “continuar”.

Comecemos por Bebedouro. Jussara Luzia Fernandes, 62, mata o namorado sergipano de 21 com golpes de tesoura e enterra o corpo no quintal. Um enredo digno do final da segunda temporada de “Tremembé”, mas sem maquiagem, sem trilha e, o mais assustador, sem intervalos. Ela fala de medo, agressões, um estado permanente de ameaça. E, para quem conhece dinâmica de violência íntima, isso não surpreende: a deterioração não começa no golpe, começa nas rachaduras invisíveis da relação, onde o afeto vira ácido e o afeto ácido vira arma.

Em Alagoas, Nádia Tamires encena sua própria versão de “atirei porque o Estado não me protegeu”. Sai do carro como quem sai para resolver o que ninguém resolveu por ela. É o tipo de história que, em “Tremembé”, seria mostrada em câmera lenta, com narrador grave. Na vida real, veio em 480p e viralizou sem legenda. O nome técnico para o que ela descreve é learned helplessness jurídica: quando a mulher percebe que está sozinha, abandonada entre boletins inúteis e medidas protetivas que protegem só no papel. É nesse vácuo que o impossível vira possível e o possível vira tragédia.

E então chegamos a Sergipe. Daniele Barreto, médica, acusada de participação na morte do marido, empurrada entre diagnósticos, medidas cautelares e um sistema prisional que falha até naquilo que diz fazer. Borderline, segundo laudos. Vulnerável, segundo o óbvio. Sem chance, segundo o desfecho. A pergunta é simples: o Estado avaliou risco ou apenas carimbou papel? Para quem acompanha tragédias anunciadas, a resposta é previsível.

E aqui entra “Tremembé”. A série não cria monstros; apenas os enquadra com melhor iluminação. Suzane von Richthofen, Elize Matsunaga, Anna Carolina Jatobá, cada uma encarna um modo particular de ruir por dentro antes de ruir por fora. E quando olhamos para nossas três personagens reais, é difícil não fazer paralelos: Jussara tem algo da Elize: a relação que implodiu na privacidade e explodiu no crime, a convivência que virou cárcere emocional, a violência que amadureceu em silêncio até não caber mais no corpo de ninguém. Nádia carrega ecos de Anna Jatobá: a narrativa disputada, a maternidade sob suspeita, a história filtrada pelos olhos de quem decide qual versão merece sobreviver e que, no fim, condena sem nuance. Daniele, por sua vez, passeia pela sombra psíquica de Suzane: vínculos traumáticos, desamparo emocional, decisões que parecem saídas de uma mente que já não distingue saída de abismo. Não porque sejam iguais, mas porque habitam a mesma zona cinzenta da psique humana, onde amor e destruição se confundem sem pedir licença.

E claro, o público é o mesmo: o espectador faminto que assiste desgraça como quem assiste tutorial. O que era horror vira entretenimento. O que era dor vira meme. O que era vida vira propriedade intelectual. O que une Jussara, Nádia e Daniele não é uma suposta “crueldade feminina”. É a soma de vínculos adoecidos, violência invisível, decisões jurídicas míopes e um país que lida com sofrimento psíquico como quem fecha aba incômoda do navegador: sem olhar, sem pensar, sem querer saber. A psicanálise chama esses vínculos de traumáticos. O direito tenta enquadrá-los em categorias rígidas que nunca dão conta do subterrâneo. No meio disso tudo, a vida real, essa que não tem trilha sonora nem diretor de fotografia, desaba.

Ninguém mata “do nada”. Sempre existe um antes. O problema é que o Brasil insiste em olhar só para o depois, para o sangue seco, para o escândalo pronto. Mas e você, o que enxerga? O que acha que realmente está acontecendo por trás desses casos que se repetem como uma temporada interminável? Porque, enquanto seguimos fingindo que cada tragédia é um raio isolado, novas histórias já estão sendo escritas agora, no silêncio das casas, nos processos engavetados, nas telas que inflamam rancor e nos pedidos de ajuda que ecoam muito antes do primeiro golpe… e continuam sem resposta. Talvez seja hora de perguntar e de responder por que continuamos assistindo tudo isso como plateia passiva. Afinal, você também faz parte desse enredo. O que pensa sobre ele? Comente e opine aqui! Ufa! Que texto difícil….

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