O alerta veio em números nacionais, mas o impacto é local. O resultado do Enamed, o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica, escancarou aquilo que gestores hospitalares já sussurravam nos corredores e agora dizem em voz alta: há médicos saindo da faculdade sem preparo mínimo para lidar com situações básicas da prática clínica. E quando isso acontece, quem paga a conta não é a instituição de ensino. É o paciente. É o hospital. É o sistema público de saúde. É a sociedade.
Um terço dos cursos avaliados teve desempenho insatisfatório. Não é detalhe estatístico. É sinal de que algo saiu do controle. A abertura desenfreada de faculdades de medicina, muitas vezes sem hospital-escola estruturado, sem campo de prática adequado e sem corpo docente robusto, criou um paradoxo perigoso: mais diplomas, menos segurança assistencial.
Hospitais relatam o óbvio que ninguém queria admitir. Profissionais recém-formados que erram indicação de exames, prescrição de medicamentos e procedimentos básicos. Emergências, que deveriam ser ocupadas por médicos experientes, viraram porta de entrada de quem ainda não deveria estar ali. O resultado é desperdício de recursos, aumento de judicialização e, pior, risco direto à vida.
E Sergipe, como fica nesse cenário? O Estado não está isolado dessa realidade nacional, mas também não pode ser colocado no mesmo saco. Aqui, é preciso separar com clareza projetos improvisados de instituições consolidadas. E nesse ponto, a Universidade Federal de Sergipe merece ser destacada com justiça.
A UFS, especialmente no curso de medicina, segue um modelo mais clássico, com base hospitalar, formação progressiva, rigor acadêmico e integração com o SUS. Não é um curso perfeito, nenhum é, mas é um curso que respeita o tempo da formação médica. Forma menos profissionais, porém com mais responsabilidade. Isso faz diferença no atendimento, no respeito aos protocolos e na maturidade clínica dos egressos.
Enquanto parte do país apostou em quantidade, a UFS manteve o foco na qualidade, na vivência prática supervisionada e no compromisso com a formação completa. Em tempos de atalhos educacionais, isso não é pouco. É virtude.
O problema maior não está apenas na prova do Enamed. Está no que ela revela. O Brasil criou um exército de recém-formados sem garantir o passo seguinte. Faltam vagas de residência médica, faltam hospitais-escola estruturados e sobra pressão por mão de obra barata. Muitos saem da graduação direto para plantões de alta complexidade, quando deveriam estar aprendendo sob supervisão.
Não é coincidência que denúncias nos conselhos regionais tenham aumentado. A população já sente o efeito. Quando um médico não sabe intubar, passar um cateter ou conduzir uma emergência respiratória, não se trata de erro administrativo. É falha de formação.
A reação de parte das faculdades, que tentaram barrar a divulgação dos resultados, também diz muito. Quem forma bem não teme avaliação. Quem se incomoda com a transparência costuma ter algo a esconder.
O caminho é conhecido, embora politicamente desconfortável. Frear a abertura irresponsável de cursos, exigir campo de prática real, fortalecer residências médicas e valorizar instituições públicas e privadas que entregam formação consistente. Diploma não pode ser produto de prateleira. Medicina não é EAD emocional nem promessa de marketing.
Sergipe precisa estar atento. Precisa cobrar qualidade, proteger seus pacientes e valorizar quem faz o dever de casa. Porque no fim, não é sobre rankings, notas ou reputação institucional. É sobre algo bem mais simples e mais sério. Na medicina, erro não é retórico. Erro sangra.




