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Durante anos o castigo foi aposentadoria. Agora o Dino mudou o roteiro

Durante anos, o brasileiro assistiu a um espetáculo curioso no teatro da Justiça. Quando um magistrado cometia um deslize grave, não era exatamente punido. Era promovido ao curioso cargo de aposentado remunerado. Era uma espécie de prêmio por desempenho ao contrário. O cidadão comum perdia emprego, casa, crédito e até o sono. Já certas autoridades recebiam uma despedida elegante, com proventos e silêncio institucional. A justiça parecia funcionar como elevador de luxo, sempre subindo para alguns poucos e travando para o restante da população.

Pois eis que surge o personagem improvável dessa temporada jurídica. Flávio Dino, apelidado por muitos de o Dino do STF, resolveu entrar no debate com botas pesadas e sem pedir licença ao clube do cafezinho togado. Primeiro veio a questão dos penduricalhos salariais, aquela coleção de bônus, gratificações, auxílios e inventividades contábeis que transformavam contracheques públicos em verdadeiros carnavais remuneratórios. Dino apertou o botão da transparência e disse basicamente o seguinte: mostrem tudo, expliquem tudo e parem de fingir que isso é normal.

Agora vem o segundo capítulo dessa novela institucional. A aposentadoria compulsória como punição disciplinar para magistrados entrou na mira. Durante décadas ela funcionou como a mais elegante das punições brasileiras. O juiz fazia algo muito errado e era mandado para casa com salário. Uma lógica tão curiosa que faria qualquer trabalhador comum perguntar se também poderia cometer uma pequena infração no escritório para ganhar aposentadoria antecipada.

A decisão recente muda o tom da música. Dino afirma que aposentadoria não pode servir como castigo administrativo. Se houve falta grave, a discussão precisa caminhar para algo mais sério, inclusive a perda do cargo. Em outras palavras, não é mais o elevador social do escândalo que leva o magistrado diretamente para a aposentadoria confortável. Agora existe a possibilidade de abrir a porta da responsabilidade real, aquela que todo cidadão conhece muito bem quando pisa fora da linha.

Isso cria algo raro na paisagem institucional brasileira. Uma sensação de simetria. O pedreiro, o professor, o comerciante e o motorista de aplicativo começam a perceber que talvez a régua esteja sendo aproximada. Não igual, porque o Brasil ainda é especialista em hierarquias invisíveis, mas pelo menos, menos torta do que antes. Transparência de penduricalhos de um lado, revisão de punições do outro. A engrenagem começa a se mover e isso já causa um leve susto em quem estava acostumado ao silêncio confortável dos privilégios.

Claro que o debate ainda vai longe. Supremo, CNJ, tribunais e corporações jurídicas ainda vão discutir cada vírgula dessa história. Mas o fato é que o ministro Flávio Dino colocou um holofote onde antes havia apenas sombra elegante. E quando a luz acende, certas mágicas institucionais deixam de funcionar. No palco da República, o velho espetáculo da aposentadoria premiada começa a perder graça. E pela primeira vez em muito tempo o público que paga o ingresso chamado imposto parece finalmente estar assistindo a um roteiro um pouco mais justo.

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