Em Sergipe, durante muito tempo, a conta de água funcionou como uma espécie de ficção tarifária. O cidadão abria a torneira, saíam três pingos e um arrependimento, mas a fatura chegava como se ele tivesse abastecido um parque aquático em casa. Consumiu 2 metros cúbicos? Pagava por 10. Consumiu 3? Pagava por 10 também. O hidrômetro servia quase como peça decorativa, porque a matemática oficial já vinha pronta. Era o famoso sistema “não importa o que você gastou, importa o que eu quero cobrar”. E assim o sergipano foi financiando, por anos, uma modalidade criativa de cobrança onde até a ausência de água vinha com tarifa premium.
Agora, em 2026, a Agrese resolveu suspender a cobrança automática da tarifa mínima de 10 metros cúbicos nos municípios atendidos pela Iguá Sergipe, determinando que o consumidor pague apenas pelo que realmente consumir. Aleluia. Palmas. Confetes. Finalmente descobriram que cobrar por água que não chegou talvez não fosse exatamente uma política pública de carinho com o contribuinte. A medida é correta, necessária e justa, especialmente num momento em que falta água em bairros inteiros e em grande parte do Estado. A população vive em regime de namoro sério com o carro pipa. Mas aqui cabe uma pergunta simples: por que isso só agora? Porque justiça tardia também chega com cara de desculpa administrativa.
É aí que entra uma verdade que precisa ser dita sem maquiagem institucional: essa bandeira não nasceu ontem e não nasceu dentro do ar- condicionado da regulação de última hora. O deputado estadual Georgeo Passos já defendia essa proporcionalidade há muito tempo na Assembleia Legislativa de Sergipe. Já cobrava que o consumidor pagasse pelo que efetivamente consumia e não por uma ficção de 10 metros cúbicos obrigatórios. Georgeo vinha repetindo o óbvio ululante: se faltou água, não pode sobrar cobrança. Se a torneira falhou, a conta não pode vir em modo luxo. Mas, como acontece muito em política, primeiro ignoram, depois resistem e por fim anunciam como se fosse uma genialidade inédita.
Existe um ditado popular maravilhoso para isso: fazer festa com o chapéu dos outros. E convenhamos, poucos traduzem tão bem esse momento. Agora aparecem alguns comemorando a portaria como se tivessem descoberto a pólvora molhada da justiça tarifária, quando na verdade o povo já pagava essa injustiça havia anos e Georgeo já apontava isso muito antes de virar crise pública. O sergipano passou tempo demais pagando taxa mínima sem consumo mínimo, quase uma assinatura compulsória do sofrimento hídrico. Era como ir ao restaurante, não comer nada e ainda sair pagando rodízio completo porque “é a regra da casa”.
A portaria da Agrese merece aplauso porque protege o consumidor e impõe um pouco de racionalidade no caos hídrico atual. Mas também merece memória política. Não foi um presente repentino do sistema. Foi resultado de pressão, de crise e de gente que já vinha alertando há muito tempo. O governo não pode posar de salvador de um problema que ajudou a deixar crescer. E o povo sergipano precisa lembrar disso. Porque quando a água não chega, a conta chega. E quando a justiça chega tarde, ela não apaga os boletos pagos em silêncio. O mérito da medida existe, mas a paternidade da luta também: essa conta, quem começou a cobrar foi Georgeo Passos muito antes de a Agrese finalmente abrir a torneira da razão.




