A política brasileira tem uma habilidade curiosa, transformar uma simples lista de contatos em roteiro de filme policial. Bastou aparecer o nome de algumas figuras públicas no telefone de Daniel Vorcaro, ex dono do Banco Master, para parte da internet entrar em modo CSI de WhatsApp. A lista, dizem, tem político, deputado, gente graúda de Brasília e, para surpresa geral da plateia, até o nome do governador de Sergipe, Fábio Mitidieri. Pronto. Foi o suficiente para a imaginação popular correr mais rápido que notícia em grupo de família.
Mas vamos combinar uma coisa básica que às vezes se perde no calor das manchetes. Ter o telefone de alguém não significa ter relação com alguém. Se isso fosse critério de culpa, metade do Brasil estaria enrolada. Governador, deputado, senador, prefeito, essas figuras vivem com o telefone rodando em agenda alheia. É assessor pedindo contato, empresário querendo reunião, político tentando aproximação, curioso querendo mandar mensagem. A agenda de quem circula na política costuma parecer mais um catálogo telefônico do que uma lista de amigos.
O próprio governador Fábio Mitidieri reagiu de forma direta e sem rodeios. Disse que soube do assunto pela imprensa, que nunca teve contato com Daniel Vorcaro e reafirmou aquilo que qualquer gestor público precisa repetir todos os dias, transparência e zelo com o bem público. Foi uma resposta tranquila, firme e sem aquele drama que às vezes a política adora encenar. Falou, explicou e seguiu trabalhando, como deve ser.
Aliás, a tal agenda de Vorcaro parece mais movimentada que camarote de carnaval. Segundo as reportagens, aparecem nomes de peso da política nacional, deputados influentes e figuras conhecidas de Brasília. Se a regra fosse suspeitar de todo mundo que aparece no telefone de alguém, seria preciso abrir uma CPI da agenda telefônica. Daqui a pouco vão querer investigar também quem tem o número do padeiro, do mecânico e do grupo da pelada de domingo.
Enquanto isso, em Sergipe, a política segue naquele velho esporte favorito, especular antes de entender. Tem gente que vê um nome numa lista e já começa a construir tese, roteiro e final de novela. O curioso é que muitas vezes o celular guarda contatos que a pessoa nunca usou, nunca ligou e talvez nem saiba exatamente de onde veio. Agenda telefônica, como se sabe, é território fértil para mal entendido.
No fim das contas, a história parece muito mais barulho de bastidor do que fato concreto. O governador falou, esclareceu e colocou o assunto no lugar certo, o da normalidade. Porque numa democracia séria, aparecer numa lista de telefone não transforma ninguém em personagem de investigação. E se fosse assim, convenhamos, a política brasileira já estaria inteira atrás das grades apenas por causa da agenda do celular.




