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Editorial: André Davi no espelho de Caetano, Chico Buarque cantando “Ai, meu guri” e Venâncio Fonseca dizendo o que ninguém queria ouvir

Eu nem ia escrever. Juro que não ia. Mas tem texto que não é escolha, é destino. Ele chega sem pedir licença, como música do Chico Buarque tocando em rádio antigo: a gente até pensa em desligar, mas no fundo sabe que precisa ouvir até o fim. E quando percebi, estava de novo pensando nos posts de André Davi, nas botas, nas frases, nas andanças por Estância, Aracaju e adjacências, e nessa mania curiosa de confundir cargo público com biografia autorizada.

Chico entende o Brasil melhor do que muita tese. “Ai, meu guri” não é só canção: é aviso. O guri cresce, ganha nome, ganha rua, ganha holofote e, de repente, passa a achar que o mundo é extensão do próprio quintal. André Davi virou esse personagem contemporâneo. Um delegado que construiu imagem de enfrentamento, dureza, reação rápida. Homem de bota e bota diz muito. Bota pisa. Bota marca território. Bota faz barulho no chão. Não combina muito com o silêncio da crítica.

Em Estância, surge nas notícias como autoridade policial em operação que terminou em morte após confronto. Em Aracaju, aparece em ações do Denarc, da 2ª DM, sempre com o mesmo roteiro oficial: houve reação, houve troca de tiros, houve socorro, houve morte. O nome dele está lá. Não como réu, não como acusado, como voz institucional. O dado é frio, repetido, incômodo. Em pelo menos cinco ocorrências publicadas, seis mortes no total. Isso não é julgamento. É histórico. E histórico não se apaga com discurso inflamado.

André Davi virou personagem porque fala. Fala muito. Fala forte. Fala como quem precisa reafirmar o próprio papel o tempo inteiro. “Eu fiz”, “eu reagi”, “eu resolvi”. A segurança pública, coitada, vai ficando pequena diante desse “eu” tão grande. E quando alguém ousa escrever, rir, ironizar ou simplesmente perguntar, a reação vem, como se crítica fosse ofensa pessoal; como se jornalista tivesse que pedir licença a André Davi, mandar flores e avisar antes de pensar. Coitado de Vitor Vieira, de gordo a magro em tempo recorde. Beijos, meu lindo, corajoso.

Aí eu paro, tomo um gole de café e penso: nunca vi Daniela Garcia perder o prumo e olhe que muitas críticas a fiz. Nunca vi Katarina Feitosa confundir crítica com ataque e olhe que muitas críticas a fiz. Nunca vi João Eloy, duro como poucos, sair em cruzada contra a imprensa. Nunca vi Coronel Ribeiro tratar contraditório como inimigo. Nunca vi Fábio Alan, Mário Leoni ou Alessandro Vieira que critico sempre agir como se estivessem acima do debate público. E, indo mais longe, nunca vi o coronel Iunes, nos tempos áureos, peitar a imprensa. Todos entendem o jogo. Todos sabem que praça pública tem barulho.

E aí entra Venâncio Fonseca. Faço aqui uma observação necessária, até por honestidade intelectual: não sou próximo, não tenho relação política, não tenho convivência pessoal nem qualquer alinhamento com Venâncio Fonseca. O que existe é respeito e apreço pelo que ele representa no debate público. Conheço a trajetória, acompanhei a atuação, observei os erros e os acertos, como faço com qualquer personagem público. Venâncio sempre foi um homem de fala calma, postura discreta, olhar atento. Viveu, ganhou, perdeu. Pecou pela vaidade, ele próprio reconhece e pagou o preço. Talvez exatamente por isso tenha hoje a autoridade moral para dizer o que disse, sem raiva, sem ataque, sem necessidade de holofote. Falou como quem conhece o espelho e já se perdeu nele um dia.

Foi num programa de Narciso Machado que Venâncio resolveu dizer o que muita gente cochicha e ninguém assume. Narciso, que carrega no nome e na postura a máxima eternizada por Caetano Veloso:“Narciso acha feio o que não é espelho”, ouviu a frase como quem sabe que ela não veio para agradar; veio para esclarecer. Venâncio foi direto, elegante e cirúrgico: “André Davi é um excelente policial, mas perde pela vaidade.” Silêncio de estúdio. Do tipo que dói mais que aplauso. Porque vaidade é isso: um espelho grande demais onde o sujeito passa a se olhar sozinho e esquece o resto do mundo. Venâncio falou como quem não acusa, confessa.

Chico cantava que “o tempo passou na janela e só Carolina não viu”. Às vezes acho que a Carolina agora usa bota. O tempo passa, a crítica chega, o humor aparece e ainda assim há quem não veja. Jornalismo não é inimigo. Humor não é desrespeito. Crônica não é ataque. É leitura do tempo. É registro de comportamento. É memória em construção. É Vitor Vieira fazendo jornalismo do jeito que precisa ser feito.

No fim, fica esta crônica meio torta, meio musical, meio política, meio confissão. Eu escrevo porque não dá para fingir que não vi. Venâncio, com a frase precisa, lembra que ninguém perde por ser bom, perde por achar que é único. E André Davi, de bota firme, talvez precise aprender que autoridade não se mede pelo volume da voz, mas pela capacidade de ouvir.“Ai, meu guri.” Chico avisou.

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