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Editorial: Da farda e do distintivo ao voto

De uns tempos para cá, virou quase um roteiro pronto. O cidadão entra na segurança pública, ganha visibilidade, aparece bem nas operações, cresce nas redes e, quando a população se dá conta, já está com discurso afinado e número na urna. Não é acaso, é estratégia. A segurança pública deixou de ser só missão e virou vitrine. E em ano eleitoral, vitrine boa vira candidatura. O combate ao crime, que deveria ser prioridade absoluta, muitas vezes vira também pré-campanha disfarçada.

No Brasil inteiro, esse movimento já é quase institucionalizado. Secretários, comandantes, delegados e coronéis largando o cargo com o mesmo argumento, servir ao povo agora pela política. E claro, com um detalhe importante, todos chegam com capital eleitoral construído na exposição do cargo. Vídeo de operação, entrevista firme, presença digital forte. Funciona. E funciona tanto que virou atalho para quem quer entrar no jogo grande.

E não estamos falando de casos isolados. São nomes espalhados por diversos Estados, ex-secretários de Segurança, comandantes da Polícia Militar, chefes de Polícia Civil, todos deixando funções estratégicas para disputar cargos de deputado estadual, federal e até Senado. Guilherme Derrite em São Paulo, Felipe Curi no Rio de Janeiro, coronel Marcelo Menezes, Ulisses Gabriel em Santa Catarina, Sandro Avelar no Distrito Federal, coronel Douglas Caus no Espírito Santo, Cesar Roveri no Mato Grosso, coronel Vinicius Almeida no Amazonas, coronel Felipe Vital em Rondônia, coronel Márcio Barbosa no Tocantins, Bruno Azevedo, coronel Sérgio Fonseca na Paraíba e Hudson Teixeira no Paraná. É uma verdadeira migração organizada. A farda, que antes representava autoridade institucional, agora também representa capital político em construção.

E quando a lupa se volta para Sergipe, o cenário não decepciona. O coronel Alexsandro Ribeiro já deixou o comando da Polícia Militar para disputar vaga na Assembleia Legislativa, enquanto o delegado André Davi também saiu da Secretaria de Segurança de Aracaju para entrar no jogo eleitoral . Soma se a esse movimento nomes como o ex-deputado Capitão Samuel, histórico representante da tropa, além de outros delegados, oficiais e praças que se articulam nos bastidores. É uma tropa inteira migrando de função. Sai o combate direto e entra a disputa por voto. Não é coincidência, é tendência estruturada que se repete do Oiapoque ao Chuí.

Em Sergipe, a onda chegou com força. Não é exagero dizer que cerca de 15 nomes ligados à segurança pública devem disputar cargos nas próximas eleições. Delegados, oficiais, praças, gente que conhece o sistema por dentro e agora quer testar força nas urnas. É a prova clara de que a segurança pública virou um trampolim eleitoral. O eleitor olha e pensa que ali tem experiência. Pode até ter, mas também tem cálculo, tem timing e tem muita leitura política por trás.

Entre esses nomes, o delegado André Davi chama atenção. Se consolidou como homem de grupo. Tinha caminho aberto para deputado federal, eleição praticamente encaminhada, mas decidiu mirar o Senado. Não é ousadia vazia, é estratégia. Em política, saber a hora de subir de patamar é tão importante quanto saber a hora de esperar. E André Davi parece ter entendido bem esse jogo.

Já o coronel Alessandro Ribeiro fez um movimento clássico, mas com discrição e firmeza. Deixou o comando da Polícia Militar para disputar vaga de deputado estadual e fez isso sem espetáculo. Sem crise, sem barulho, apenas seguindo o roteiro de quem entende o peso do cargo que ocupava. Em tempos de excesso de exposição, escolher o silêncio pode ser um diferencial. E isso, ainda que sem alarde, soma pontos.

Agora, quando o assunto é promessa política, Sergipe já tem um exemplo que virou quase estudo de caso, a delegada Danielle Garcia. Surgiu como novidade, cresceu rápido, virou nome competitivo, mas começou a perder fôlego na mesma velocidade. Tentou, insistiu, reapareceu, mas os resultados já não acompanham o discurso. A cada eleição, a expectativa é alta, mas a entrega vem menor. E política não perdoa repetição sem vitória. Promessa demais, resultado de menos começa a pesar.

E no meio disso tudo, ainda tem Alessandro Vieira, que deveria ser um dos protagonistas desse debate. Mas parece cada vez mais distante da realidade do jogo político que está sendo jogado. Enquanto novos nomes avançam com estratégia e posicionamento, ele muitas vezes passa a sensação de estar assistindo de fora. Política exige presença, leitura e movimento. Quem não se adapta, fica para trás.

No fim das contas, Sergipe apenas replica o que já virou tendência nacional. A segurança pública virou palco político. A farda virou credencial eleitoral. E o eleitor, mais uma vez, vai ter que separar quem realmente quer resolver o problema de quem apenas aprendeu a usá-lo como escada. Porque uma coisa é combater o crime. Outra, bem diferente, é saber governar depois que os votos chegam.

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