Até hoje, a política sergipana ainda vive aquele curioso teatro chamado pré-campanha. Todo mundo é candidato sem poder pedir voto, todo mundo faz campanha jurando que não está fazendo campanha e todo discurso termina a poucos centímetros da frase proibida. Amanhã acaba a pantomima. A propaganda eleitoral estará oficialmente liberada nas ruas e na internet. O horário gratuito de rádio e televisão ainda aguardará até 28 de agosto, mas a disputa real já terá começado.
É aí que Fábio Mitidieri, Valmir de Francisquinho e os demais nomes apresentados ao eleitorado precisarão trocar a confortável linguagem das convenções pela parte desagradável da política: convencer gente que ainda não está convencida. Convenção é território amigo. Rede social de candidato também costuma ser. Eleição começa de verdade quando o político precisa conversar com quem não bate palma antes de ele terminar a frase.
Nas redes sergipanas, a ansiedade já apareceu. Publicações indexadas tratam o dia 16 como início efetivo das campanhas e associam a data às movimentações de candidatos e grupos políticos. O domingo promete ser um festival de vídeo, caminhada, slogan, camisa passada, sorriso treinado e candidato descobrindo subitamente que sempre adorou tomar café em copo plástico no mercado municipal, pelo menos para Fábio, pois Valmir nasceu dentro do mercado na banca de marchante.
Mas a campanha de 2026 traz uma novidade incômoda para os marqueteiros: o algoritmo agora tem advogado olhando por cima do ombro. Impulsionamento pago não pode ser utilizado para promover propaganda negativa; influenciador não pode receber dinheiro escondido para fingir apoio espontâneo; disparo indiscriminado de mensagens tem restrições; inteligência artificial precisa respeitar regras de transparência; e deepfake simplesmente entrou na zona proibida da campanha.
O cuidado deverá ser ainda maior para quem governa. Desde julho, a legislação eleitoral impõe restrições à publicidade institucional e à utilização de canais oficiais. Palácio é Palácio; comitê é comitê. Governo é governo; campanha é campanha. Misturar os dois pode render muito mais que uma crítica da oposição: pode render processo. E quem ocupa a cadeira mais alta do Executivo precisa ter atenção redobrada justamente porque dispõe daquilo que seus adversários não possuem: máquina, estrutura, cerimônia, comunicação oficial e exposição cotidiana.
Valmir, Ricardo e os demais adversários também terão sua prova. Até agora foi possível disputar manchetes, apresentar chapas, produzir vídeos e falar para as próprias torcidas. A partir de domingo será necessário apresentar narrativa, projeto e capacidade de ocupação territorial. Rede social produz barulho. Campanha competitiva precisa transformar barulho em voto. E voto ainda mora em bairro, povoado, município, feira, comércio, família e grupo de WhatsApp.
Há também uma nova espécie de cabo eleitoral em 2026: a inteligência artificial. Ela escreve, edita, dubla, recria voz, produz imagem e fabrica realidade com assustadora facilidade. O TSE endureceu as regras justamente porque uma mentira eleitoral já não precisa de gráfica, estúdio ou equipe profissional. Precisa apenas de alguns minutos e de um botão de compartilhar. O eleitor poderá receber no telefone uma cena que nunca aconteceu, pronunciada por uma voz que nunca falou aquilo. É por isso que a campanha moderna exige tanto fiscalização quanto discernimento.
Domingo, portanto, não começam apenas os jingles. Começa o teste. O teste da força de Fábio fora da estrutura institucional. O teste da capacidade de Valmir converter capital político em campanha estadual. O teste dos candidatos menores para provar que existem além do registro eleitoral. E, principalmente, o teste de uma Justiça Eleitoral diante de uma campanha que será produzida na velocidade das redes.
Até agora os políticos estavam aquecendo. A partir de 16 de agosto, o eleitor finalmente poderá conferir quem tem perna para correr e quem passou meses fazendo alongamento para fotografia. A campanha começa. E, desta vez, cada celular será ao mesmo tempo palanque, televisão, praça pública, arquivo de prova e, para os mais descuidados, quase uma sucursal do TRE




