O PL em Sergipe virou, nesta semana, o maior espetáculo político fora do horário eleitoral. Depois de décadas sob o comando de Edivan Amorim, sustentado mais pela amizade com Valdemar Costa Neto do que pela própria força de articulação, o partido mudou de mãos. Não foi transição suave, foi empurrão. Pressionado pela família Bolsonaro e pela necessidade de oxigenar a legenda, o presidente nacional do PL decidiu entregar o comando ao deputado federal Rodrigo Valadares, ainda no União Brasil, mas já com a chave da sigla no bolso.
Rodrigo é bolsonarista raiz, daqueles que não têm medo de ir às ruas, brigar, defender e se desgastar em nome do mito. Para ele, assumir o PL em Sergipe não é apenas gesto simbólico: é presente estratégico. O detalhe é que, por ainda estar filiado ao União, a presidência formal ficará nas mãos de sua esposa, a vereadora Moana Valadares, até que a janela partidária permita a troca oficial. Brasília aplaude, a família Bolsonaro vibra, e Sergipe assiste ao início de mais um capítulo turbulento da política local.
Enquanto Rodrigo erguia seu castelo, outros nomes tentavam não ficar de fora da festa. Emília Corrêa correu para Brasília, Valmir de Francisquinho buscou articulação, e Edivan recorreu a velhas amizades, foi aos Republicanos até o próprio Valdemar. Todos voltaram de mãos abanando. O recado foi simples e direto: o PL agora é de Rodrigo, com direito a protagonismo político e o respaldo de quem manda em Brasília. Ainda assim, Rodrigo fez questão de acenar com uma “divisão de poder”, oferecendo parceria a Valmir e Emília, como quem diz: “o reino é meu, mas a corte ainda tem espaço para aliados fiéis”.
A reação veio rápido. O prefeito de Itabaiana, Valmir de Francisquinho, confirmou em entrevista que Moana assumirá o PL até Rodrigo se desligar do União. Mas, ao ser pressionado sobre o futuro, deixou escapar que poderia migrar para o Podemos. E não se trata apenas de especulação: o deputado federal Thiago de Joaldo revelou que ele, Valmir e Ícaro de Valmir já estiveram reunidos com a presidente nacional do Podemos, Renata Abreu, que abriu as portas para a filiação, com uma condição: que o grupo tenha o comando da legenda em Sergipe.
A equação, no entanto, é delicada. O Podemos hoje está nas mãos de Zeca da Silva, secretário do governo Fábio Mitidieri e aliado de André Moura, um articulador político que não costuma perder espaço sem reagir. Traduzindo: o partido está alinhado à base governista. Mas, se a mudança se concretizar, o efeito será explosivo: uma bomba no xadrez político sergipano. A oposição ganharia corpo, colocando PL e Podemos lado a lado numa disputa direta para ver quem, de fato, dará o tom contra o governo estadual.
No meio da enxurrada de boatos, Valmir manteve a calma. Sereno, disse que convites não faltam: MDB, Republicanos, Podemos e outros já acenaram, mas reafirmou que, por enquanto, continua no PL. Em tom bem-humorado, ironizou que também poderia convidar qualquer pessoa para se filiar, lembrando que convite não é decisão. Sua postura mostra maturidade: não age no atropelo, não se deixa levar por pressões momentâneas. Prefere observar, calcular e escolher a hora certa. Hoje permanece firme no PL, mas deixa claro que, se o tabuleiro mudar, buscará o caminho que melhor represente seu grupo e seus eleitores.
É justamente nessa brecha que a política se reinventa. O PL virou palco de disputas intensas: Rodrigo Valadares emerge como voz firme do bolsonarismo em Sergipe, Moana segura o comando interino com disciplina, e Valmir, respaldado por prefeitos, deputados e pelo peso do seu carisma, acompanha o tabuleiro com a serenidade de quem sabe que a política é jogo de paciência. O Podemos surge como rota possível, mas depende de rearranjos que ainda não estão garantidos. E assim, Sergipe assiste a um espetáculo raro: um partido mudando de mãos, famílias políticas se reorganizando, prefeitos em compasso de espera e deputados testando novas portas de entrada.
Ainda assim, é justo reconhecer o equilíbrio de Valmir de Francisquinho, que não se deixa levar pela pressa, prefere esperar o tempo certo e não desperdiçar cartucho antes da hora. Do outro lado, há de se destacar a coragem de Rodrigo Valadares, que teve peito para desafiar velhas estruturas, correr atrás do PL e deixar clara sua intenção de se consolidar como líder. E, nesse tabuleiro, quem sai menor é Edivan Amorim, que depois de anos de influência no PL saiu batendo na porta de muita gente e não foi atendido por ninguém. Entre a prudência de Valmir e a ousadia de Rodrigo, Sergipe testemunha um embate político-partidário que, para além da poeira levantada na estrada, revela duas virtudes raras na política: saber esperar e não ter medo de avançar.




