2025 termina como aqueles filmes em que a trilha sonora promete uma virada heroica, mas a cena seguinte entrega mais um susto, mais um tropeço, mais uma tentativa de explicar o inexplicável com voz calma e olhar sério. O Brasil seguiu em frente, é verdade, mas com o jeito de quem atravessa uma sala escura tateando a parede para não bater o dedão. E Sergipe, que nunca foi coadjuvante na arte nacional do bastidor, resolveu fazer sua própria temporada, com roteiro de suspense político, comédia de costumes e drama institucional, tudo no mesmo episódio e, em alguns casos, na mesma frase.
Os editoriais publicados ao longo do ano funcionaram como um diário do que se viu à luz do dia e do que se ouviu em sussurros. Porque 2025 não foi um ano de grandes explosões únicas. Foi um ano de pequenas combustões diárias. Uma crise institucional aqui, uma irritação ambiental ali, um rearranjo partidário acolá. No fim, a sensação é clara. A política brasileira virou um fogão de quatro bocas com todas acesas ao mesmo tempo, enquanto ninguém lembra de olhar a panela do básico. É quando a sociedade percebe que, enquanto os poderes discutem o termômetro, a febre segue alta.
A crise institucional reapareceu como reaparece sempre em um país que aprendeu a normalizar o alarme. A democracia não se desgasta apenas quando alguém tenta quebrá-la de forma explícita. Ela também se corrói quando a briga permanente vira paisagem e o conflito passa a ser tratado como folclore. Quando o óbvio precisa ser reafirmado em voz alta, quando ministros precisam explicar a Constituição como se estivessem lendo o manual de um eletrodoméstico mal utilizado, não é sinal de força institucional. É sinal de que as bordas estão sendo testadas, esticadas e empurradas. O Brasil vai se especializando em viver à beira do precipício fingindo que é mirante.
Enquanto isso, Sergipe viveu uma aula prática de infraestrutura. A crise do abastecimento de água e centenas de milhares de imóveis afetados, lembrou algo que nenhum discurso consegue esconder por muito tempo. A vida real não negocia com narrativa. Quando falta água, não adianta foto, não adianta live, não adianta aplauso. O que conta é comando, execução e transparência. O episódio expôs a fragilidade de um sistema excessivamente dependente de um único eixo e de uma estrutura que mistura trechos antigos, manutenção irregular e um modelo híbrido que soa moderno até o dia em que o cano estoura. A resposta do governo, com comitê de crise, coordenação direta e restabelecimento rápido, mostrou um tipo raro de gestão pública. Aquela que aparece quando a engrenagem é obrigada a funcionar. Mais importante ainda foi o anúncio de medidas preventivas, auditorias, revisão de contratos e expansão estrutural, sinalizando que crise não é apenas para apagar incêndio, mas para revisar a fiação.
Mas se a água escancarou a fragilidade da infraestrutura, a política voltou a revelar sua vocação para transformar gesto humano em teoria conspiratória. E 2025 teve um episódio emblemático nesse sentido. A visita de Valmir de Francisquinho a Belivaldo Chagas. A política sergipana tolera quase tudo. Tolera promessa evaporada, tolera discurso sem entrega, tolera aliança improvável pela manhã e briga teatral à tarde. Mas um homem visitar outro para desejar saúde virou escândalo. Foi como abrir uma janela em um quarto tomado pela fumaça. Parte do sistema não suportou. Valmir agiu com humanidade. Belivaldo respondeu com civilidade. O escândalo não foi a visita. Foi a ausência de escândalo. O que incomodou não foi o abraço, foi a maturidade. Há quem viva do conflito e entre em pânico ao ver adultos conversando.
Mais do que isso, a reação desproporcional ao gesto deixou evidente algo que muitos preferem fingir que não enxergam. Valmir de Francisquinho segue sendo um grande líder em Sergipe. Um líder real, com base popular sólida, reconhecimento espontâneo e capacidade de mobilização que não se improvisa. É hoje, goste-se ou não, a única figura política capaz de provocar desconforto verdadeiro no Palácio dos Despachos. A única que ainda faz o governador Fábio Mitidieri olhar duas vezes para o tabuleiro antes de mover as peças. O “pato”, como se diz no vocabulário político local, continua firme e forte para o governo. Não porque grita mais alto, mas porque permanece relevante mesmo quando não fala. Em política, isso é poder puro. Valmir não precisa criar crise para existir. Basta existir para que a crise apareça ao redor. E isso explica por que um gesto simples virou tempestade. Não foi medo do abraço. Foi medo do que ele simboliza.
A partir daí, o jogo político passou a parecer brinquedo montado às pressas, daqueles em que sobram peças e ninguém sabe de onde vieram. Priscila Felizola entrou em cena com trânsito natural nos bastidores institucionais, laços familiares e presença consolidada. O recado lançado em forma de nota soou menos como coincidência e mais como aviso. Jefferson Andrade, presidente da Assembleia, apareceu como peça de estrutura, não apenas de popularidade. O Tribunal de Contas entrou no debate como se fosse sala de estar. A pergunta não dita atravessou o bastidor. Quem vai para onde para abrir espaço para quem. O eleitor percebe. E perceber não significa aceitar.
Os números, por sua vez, fizeram mais pelo debate do que muito discurso. A desaprovação do governo estadual contrastando com a aprovação robusta de Valmir de Francisquinho em Itabaiana acendeu alertas. Não é achismo. É termômetro. Governar corretamente deixou de ser diferencial e passou a ser obrigação. O cidadão olha e pergunta o que vem além do básico. É duro para o gestor. É real para o eleitor.
Nesse cenário, Fábio Mitidieri viveu o dilema clássico do poder. A tentação de abraçar tudo, agradar todos, ocupar todos os espaços. Política não perdoa excesso de zelo. Quem tenta estar em todo lugar corre o risco de não estar inteiro em nenhum. Tapete demais no chão não é conforto. É armadilha. Ainda assim, há méritos a reconhecer sem torcida. O diálogo institucional, a reorganização do governo, a entrada de Luiz Mitidieri na Casa Civil como gesto de peso político indicam tentativa de ajuste fino. Governabilidade não é apenas gestão. É articulação, previsibilidade e redução de ruído.
Ruído foi o que não faltou quando a sucessão virou fogueira acesa ainda em junho. Vice sinalizado, nomes lançados ao Senado, oposição se reorganizando, pré candidaturas surgindo com cláusula de recuo. O arraial político se armou. Para uns, caos. Para o bastidor, movimento. Nesse rearranjo, Edvan Amorim se destacou como articulador silencioso. A oposição tenta deixar de ser reação e virar projeto. Eduardo Amorim, ao tratar a Deso com firmeza técnica, lembrou que serviço essencial não aceita slogan. Exige gestão.
Em Aracaju, Edvaldo Nogueira reapareceu como personagem conhecido. Gestor consistente para uns, político distante para outros. As duas leituras coexistem. Governar bem é técnica. Ser amado politicamente é vínculo. E vínculo exige presença. O embate com Ricardo Vasconcelos escancarou que a política municipal entrou em modo confronto.
Já André Moura voltou ao centro do palco com a naturalidade de quem nunca abandonou o jogo, apenas mudou de posição. Liderar pesquisa é atravessar churrasco de camisa branca. Sempre haverá alguém tentando provar a mancha. Narrativas antigas requentadas, ataques seletivos e personagens ruidosos reapareceram. Ainda assim, André atravessou tudo com resiliência rara. Caiu, levantou, perdeu espaço, reorganizou o campo, elegeu a filha Yandra deputada federal, manteve influência e voltou com números. Sua resiliência não é discurso. É sobrevivência política comprovada.
Em meio a tanta vaidade, Venâncio Fonseca ofereceu uma lição rara. Admitir soberba, reconhecer a derrota como remédio e lembrar que o eleitor não deve nada a ninguém é quase revolucionário. A humildade não derruba carreiras. A soberba, sim.
É preciso registrar também o desempenho da prefeita Emília Corrêa, que governa Aracaju em um cenário tudo menos confortável. Aos trancos e barrancos, como costuma ser quando se assume uma cidade complexa, endividada e politicamente fragmentada, Emília vem entregando uma administração mais consistente do que seus críticos gostariam de admitir. Enfrenta uma oposição ferrenha, muitas vezes mais interessada em criar ruído do que em apontar soluções, mas tem demonstrado uma qualidade rara na política atual: tranquilidade combinada com personalidade. Em vez de governar pelo grito ou pela ansiedade do aplauso imediato, ela optou por montar o quebra-cabeça da cidade peça por peça, com método, escuta e decisão. Não resolve tudo de uma vez, mas resolve. Não promete espetáculo, entrega funcionamento. Em tempos de gestão performática, Emília parece ter entendido que administrar uma capital não é fazer cena, é arrumar a casa enquanto o barulho continua do lado de fora. E isso, silenciosamente, faz diferença.
O ano também foi de luto no jornalismo. A despedida des jornalistas que formaram gerações como Thais Bezerra, Osmário Santos, Eugênio Nascimento, Ivan Valença, Raimundo Luiz, André Barros, Mônica Dantas, é mais do que nota sentimental. É serviço público informal. Quando mestres partem, perde se arquivo vivo, referência e coragem.
Ainda assim, 2025 não foi só crise. A criação da Universidade Estadual de Sergipe, a ampliação da rede de saúde e investimentos estruturais indicam escolhas que não rendem aplauso imediato, mas constroem permanência. O balanço final é claro. Houve política como espetáculo e política como estrutura. Houve maturidade e houve vaidade. A esperança para 2026 não pode ser decorativa. Esperança é método. É cobrar menos improviso e mais entrega. Menos narrativa e mais resultado. Se o poder quiser abraçar o mundo, que antes olhe para o tapete. Sergipe e o Brasil tropeçaram demais em 2025, não por falta de aviso, mas por excesso de vaidade. Em 2026, o mínimo esperado não é milagre. É maturidade. Porque fingir que não viu o chão nunca impediu a queda. Apenas garantiu que ela se repetisse.




