Em Sergipe, pesquisa virou quase trio elétrico de pré-campanha, só que com estatístico no lugar do cantor e margem de erro no lugar do refrão. Passa uma pesquisa e toca vitória de um lado, passa outra e o outro lado já manda soltar fogos, enquanto o eleitor fica ali no meio, com a cara de quem entrou numa festa e não sabe se dança, se corre ou se pede a conta. O W1 veio dizendo que Valmir está na frente, o França respondeu que é Fábio quem lidera, o CTAS reforçou Fábio, e pronto, está armada a guerra mais animada do momento.
E aí entra a primeira lição que ninguém gosta de ouvir, mas todo mundo precisa aprender: pesquisa não é torcida organizada, é fotografia com lente diferente. Quando um instituto mostra Valmir na frente e dois mostram Fábio liderando, o que existe não é uma verdade absoluta brigando com outra mentira, é uma divergência metodológica séria, que exige cérebro frio e não dedo nervoso no grupo de WhatsApp. Sergipe hoje não tem dono eleitoral, tem disputa aberta, polarizada e com cheiro de segundo turno desde já.
Na espontânea, que é onde o eleitor fala sem ser provocado, o próprio W1 já entrega o ouro com tranquilidade. Valmir tem 19,2% e Fábio 16,6%, diferença menor que a margem de erro, ou seja, empate técnico clássico, daqueles que qualquer estatístico respeitável assina embaixo. Já França e CTAS dão vantagem maior para Fábio, mas isso não anula o ponto central: o eleitor ainda não fechou questão, está olhando, comparando, avaliando e, principalmente, esperando.
Na estimulada, a coisa vira quase um campeonato de versões. O W1 diz que Valmir abre sete pontos, o França diz que Fábio abre mais de dez, o CTAS aponta vantagem de nove. Se você olhar isso com paixão, enlouquece. Se olhar com técnica, entende rápido: cada instituto está captando um pedaço diferente do mesmo eleitorado, que ainda não se consolidou. É como medir a maré em horários diferentes, o mar é o mesmo, mas o nível muda.
E agora vem o detalhe que desmonta qualquer discurso de vitória antecipada e que deveria ser lido em voz alta em todas as rádios do Estado. Mais de 40% do eleitorado não sabe ou não respondeu na espontânea. Isso não é detalhe, isso é o coração da eleição. É um oceano de indecisos esperando alguém convencer, alguém aparecer, alguém assumir de vez o papel de candidato. Quem ignora esse número está fazendo política com base em torcida, não em realidade.
A partir daí, o que existe é uma conclusão elegante e ao mesmo tempo incômoda. Fábio Mitidieri aparece forte porque lidera em dois levantamentos recentes, tem estrutura, tem máquina e tem presença. Mas Valmir de Francisquinho aparece perigosíssimo porque lidera no W1 e, mais do que isso, mostra capacidade real de crescer, de incomodar e de puxar a disputa para um campo onde nada está garantido. É um duelo de verdade, não um passeio.
E aí entra o fator que ninguém consegue ignorar, mas todo mundo comenta em voz baixa nos corredores e em voz alta no cafezinho. Valmir ainda não entrou oficialmente no jogo como deveria. Está no tabuleiro, mas não sentou na cadeira de candidato. E é exatamente por isso que existe uma expectativa crescente, quase um suspense eleitoral, sobre o que acontece se ele decidir dar o passo definitivo.
Porque o que se comenta, inclusive dentro de ambientes políticos ligados ao próprio governo, é que uma renúncia clara e definitiva à Prefeitura de Itabaiana pode fazer Valmir crescer entre 10% e 20% nas pesquisas. Não é milagre, é lógica política. O eleitor gosta de quem entra para ganhar, não de quem fica com um pé em cada canoa. Quando o candidato se assume, o voto tende a seguir. E aí, meu amigo, a brincadeira muda de nível.
Enquanto isso, a rádio sergipana virou praticamente um campeonato paralelo. Tem programa que trata pesquisa como se fosse boletim oficial do governo, tem programa que transforma qualquer número favorável a Valmir em manchete de Copa do Mundo e tem os neutros, que são neutros até o intervalo comercial. O curioso é que muita gente fingiu que não viu a W1, enquanto outros só enxergaram ela. No fim, ninguém comentou tudo, cada um comentou o que lhe convinha.
O resumo dessa ópera bufa com sotaque sergipano é simples, direto e, para alguns, doloroso. Existe empate técnico no cenário político geral, existe polarização consolidada e existe um enorme campo aberto de eleitores esperando decisão, movimento e coragem. E se nas próximas horas Valmir resolver bater o martelo, renunciar e entrar de vez na disputa, preparem as planilhas, porque o gráfico vai mexer. E quando gráfico mexe em eleição aberta, não é ajuste fino, é terremoto político.




