A visita de Lula a Sergipe chega vestida de agenda administrativa, mas desfila com roupa de campanha. No papel, há Petrobras, saúde, transporte de pacientes e São João. Na prática, o sergipano olha para esse pacote e pergunta o que realmente vai virar obra, emprego, atendimento e dinheiro aplicado. Porque anúncio bonito Sergipe já viu demais. O que falta é entrega. Faltam BRs concluídas, Canal de Xingó saindo da promessa, hospital funcionando sem teatro e menos palanque montado em cima da esperança do povo.
O anúncio dos R$ 72,5 bilhões da Petrobras é o grande número da visita. Grande mesmo. Tão grande que precisa ser tratado com seriedade, não como se fosse pix caindo amanhã na conta do Estado. Não é dinheiro livre para Fábio Mitidieri gastar, nem cheque federal entregue ao povo sergipano. É investimento empresarial, de ciclo longo, com engenharia, licenciamento, contratos, cadeia produtiva e prazo. Mas, em ano eleitoral, bilhão sobe no palanque antes da primeira máquina chegar. Vira card, manchete, vídeo, aplauso de aliado e esperança embalada para consumo rápido. Algo mais que inexistente.
E aí está o velho truque. Fábio Mitidieri recebe Lula como quem recebe Papai Noel fora de época, esperando que o brilho presidencial ilumine o governo estadual. Lula vem com o discurso pronto. Fábio entra com o sorriso de anfitrião. Os aliados batem palma. E o povo, que já ouviu promessa demais, continua esperando o básico. Sergipe não precisa de holografia institucional. Precisa de cronograma, recurso executado, obra andando e resultado aparecendo. Promessa com luz bonita continua sendo fumaça.
A BR 101 é o retrato dessa paciência abusada. Há décadas Sergipe espera a duplicação completa, com solenidade atrás de solenidade, ministro atrás de ministro e anúncio atrás de anúncio. Falta trecho, falta conclusão, falta vergonha administrativa para explicar por que uma obra tão essencial virou novela sem final. Em vez de vender futuro bilionário com cheiro de campanha, Lula poderia chegar e dizer algo simples: “vou terminar o que está parado”. Isso, sim, seria notícia. O resto é cortar fita de pedaço pequeno e chamar de revolução.
O Canal de Xingó segue no mesmo museu das promessas antigas. Já foi anunciado, reanunciado, redesenhado, requentado e servido de novo em diferentes governos. Lula prometeu, Dilma prometeu, aliados prometeram, Brasília prometeu, e o sertão continua esperando a água como quem espera chuva em tempo de seca e o fornecimento da Iguá. Sergipe não aguenta mais promessa reciclada com embalagem nova. O povo quer saber quando começa, quando termina e quem responde se não sair.
Na saúde, o roteiro é quase cinematográfico. Lula visita o Hospital de Amor em Lagarto, que já funciona, já atende e já é referência. Depois vai ao Hospital do Câncer Governador Marcelo Déda, onde certamente haverá emoção, lembrança de Déda, fala sobre amizade, luta social e talvez aquela pausa dramática que rende imagem bonita. Só que enquanto a lágrima cai no discurso, Fábio já encaminhou a lógica da parceria público privada para o hospital. O Estado gasta mais de R$ 170 milhões, constrói a estrutura, entrega a emoção ao palanque e prepara a gestão para a iniciativa privada. É o SUS no discurso e o balcão gerencial no bastidor.
A cena é tão irônica que parece roteiro de sátira política. Lula vai visitar um hospital que já funciona e outro que ainda busca seu modelo definitivo de funcionamento. É como o dono de uma grande rede hospitalar aparecer em Sergipe para posar no HUSE e fazer discurso apaixonado pelo atendimento público. A diferença é que aqui tudo vem com selo oficial, fotografia institucional e emoção calculada. Visitar hospital é fácil. Difícil é garantir médico, exame, cirurgia, fila andando e paciente tratado com dignidade.
A entrega dos veículos do programa Agora Tem Especialistas também entra no pacote da propaganda. Fala-se em 406 veículos, número bonito para microfone e manchete. Mas eles serão distribuídos entre vários Estados. Sergipe fica com uma parte. Ajuda? Ajuda. Resolve? Não resolve. Transporte de paciente é importante, mas não substitui especialista, remédio, exame, regulação funcionando e fila reduzida. Vender carro como salvação da saúde é entusiasmo demais para entrega de menos.
E então vem o São João, talvez a parte mais sincera da agenda. Lula deve falar de forró, cultura popular, Pernambuco, alegria do povo, turismo e tradição nordestina. Tudo bonito. O São João movimenta economia, gera renda e merece respeito. Mas forró não pode virar anestesia eleitoral. O povo pode dançar, comer milho e bater palma, mas não pode esquecer a BR, o Canal de Xingó, a fila da saúde e a água que falta na torneira do sergipano. Sanfona não tapa buraco. Milho assado não conclui obra. Discurso em palanque não paga a conta da promessa.
No fim, a visita parece menos agenda de governo e mais propaganda eleitoral disfarçada de solenidade. Lula vende futuro, Fábio pega carona, os aliados aplaudem e Sergipe recebe mais uma rodada de promessas com iluminação bonita. O problema é que o povo já aprendeu: fumaça federal com sanfona estadual ainda é fumaça. Sergipe não quer ser cenário de campanha. Quer obra entregue, dinheiro aplicado e compromisso cumprido. O resto é conversa para boi dormir, mesmo quando vem traduzida para o latim do marketing oficial.





Uma resposta
Mais uma jóia de comentário do Dr Fausto Leite. Um primor de jornalismo, real, sóbrio e elegantemente elucidativo.nota 10 novamente. Fausto e meu filho, ora essa…