O governo do Luiz Inácio Lula da Silva parece ter entrado de vez na fase mística da economia. Já não se fala mais em ajuste fiscal, corte de gastos ou eficiência administrativa. Agora a aposta é mais ousada, quase espiritual. O dinheiro vai aparecer. É isso mesmo. Não é crescimento de produtividade, não é reforma estrutural, é quase uma sessão de pensamento positivo com planilha aberta. Se der certo, substitui o Banco Central por um coach motivacional e resolve tudo com afirmação diária. O problema é que, enquanto o governo mentaliza abundância, o brasileiro olha a fatura e encontra escassez.
Para dar sustentação a esse espetáculo, entra em cena a equipe de ilusionistas. De um lado, o ministro do orçamento com a missão quase sobrenatural de fazer o dinheiro surgir onde não existe. Do outro, o já consagrado mágico da arrecadação, aquele que não faz dinheiro aparecer, mas faz desaparecer do bolso do contribuinte com uma habilidade que impressionaria qualquer escola de magia. A conta é simples e cruel. Aumenta imposto, aumenta arrecadação, aumenta dívida, aumenta juros. O truque não fecha, mas o show continua. E o público paga ingresso sem direito a reembolso.
No meio dessa apresentação, surge o Brasil paralelo das estatísticas. Um país onde os números contam uma história otimista, mas a vida real insiste em contrariar. O varejo cresce, o desemprego cai, a inflação parece domesticada. Tudo muito bonito no papel. Pena que o consumidor ainda está fazendo conta no supermercado e o empresário segue travando investimento. É como aquele mágico que mostra uma carta e jura que é outra. Quem está perto percebe o truque, quem está longe aplaude. O problema é que economia não funciona na base do aplauso, funciona na base da confiança.
E quando a confiança começa a falhar, o governo recorre ao velho repertório de narrativa. Cria programas, renomeia soluções, reapresenta medidas como se fossem novidade. O Desenrola vira série com temporada renovada antes mesmo de resolver o episódio anterior. O problema de fundo continua lá, intacto, sorrindo para a plateia. Juros altos, gasto elevado, dívida crescente. Mas o roteiro segue firme. Se não resolveu, lança outro programa com nome diferente e torce para o público esquecer o anterior.
Enquanto isso, a política econômica mantém sua lógica invertida. O governo gasta mais do que arrecada, se endivida para cobrir o rombo e, no final, quem lucra são justamente aqueles que operam no topo do sistema financeiro. É a famosa transferência de renda ao contrário. Sai do pagador de imposto, passa pelo cofre público e chega turbinado ao mercado. Um espetáculo de eficiência às avessas. Se fosse comédia, seria genial. Como política pública, é preocupante.
E não para por aí. Quando o governo decide mexer em combustível, entra mais um ato do teatro econômico. Aumenta a mistura, ajusta a composição, promete benefícios indiretos e deixa o consumidor tentando entender por que paga o mesmo por um produto diferente. Pode até ajudar setores específicos, como o agronegócio, que ganha um respiro. Mas para quem está na ponta, o motorista comum, o impacto é outro. Menos autonomia, mais dúvida e a sensação de que sempre há uma explicação técnica para justificar o desconforto prático.
No Congresso, o clima já não é de encantamento. As derrotas recentes mostram um governo com base fragmentada, apoio oscilante e dificuldade de articulação. A política é rápida em perceber cheiro de fraqueza. Quando isso acontece, aliados ficam cautelosos e adversários ganham coragem. O resultado é um governo que começa a negociar mais do que liderar. E quando a liderança vacila, a agenda trava. Não por falta de discurso, mas por falta de força.
No fim, a grande verdade é simples e incômoda. Dinheiro não aparece por mágica. Não nasce de decreto, não brota de discurso e não responde a pensamento positivo. Ele vem do trabalho, do investimento, da produtividade. E quando o governo ignora isso e aposta em atalhos, o custo aparece em algum lugar. Seja na inflação, nos juros ou no bolso de quem sustenta tudo isso. O espetáculo pode até continuar, mas a plateia já começou a perceber que o truque é velho.




