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Editorial: Marcel Maia Montalvão: o juiz que enfrentou o mundo sem nunca perder a alma


Na terça-feira de Carnaval, quando a cidade ainda insiste em acreditar que o tempo pode ser adiado por mais um dia de festa, a notícia chegou como uma sentença sem recurso. Marcel Maia Montalvão partiu. E partiu deixando aquela sensação estranha de que alguns homens deveriam ter prazo maior. Não pelo cargo que ocuparam. Mas pela integridade com que ocuparam. O silêncio que ficou não é apenas ausência física. É ausência de referência. De método. De firmeza. De serenidade

Marcel nunca foi homem de holofote. Foi homem de estrutura. Na faculdade, já demonstrava o que depois se tornaria marca registrada. Organização quase obsessiva. Disciplina inegociável. Generosidade discreta. Emprestava caderno, explicava conteúdo, organizava pontos para quem precisava. Eu, mais jovem, aprendia sem perceber que estava diante de alguém que levava a vida como levava os estudos. Com seriedade, mas sem arrogância. Ria das minhas piadas repetidas como se fossem novas. Não por ingenuidade. Por delicadeza.

Antes da toga, veio o capacete. Engenheiro químico formado na Universidade Federal de Sergipe, especialista respeitado na indústria petrolífera, profissional valorizado, salário alto, carreira promissora. Até que um acidente em uma plataforma mudou o rumo. Um ano entre cama, cadeira de rodas e muletas. O dinheiro evaporado pelo Plano Collor. O emprego perdido. O futuro redesenhado à força. Muitos teriam desistido. Marcel recomeçou. Deu aulas de matemática e química para pagar a faculdade de Direito. Voltou a ser aluno aos quarenta anos. Estudou com a mesma concentração de sempre. Prestou concurso. Passou. Vestiu a toga sem triunfalismo. Apenas com senso de dever.

Na magistratura, ganhou fama de rigoroso. E era. Sentenças longas, fundamentação sólida, enfrentamento direto ao crime organizado. Não decidia para agradar plateia. Decidia para sustentar juridicamente cada linha. Quando determinou o bloqueio do WhatsApp no contexto de uma investigação complexa, o país inteiro aprendeu seu nome. Manchetes inflamadas. Críticas nacionais. Pressão internacional. Ele permaneceu no mesmo ponto. Na mesa. Nos autos. Na convicção de que ordem judicial não é sugestão. Posteriormente, sua atuação foi analisada e arquivada pelo Conselho Nacional de Justiça. O barulho foi grande. A postura dele, não mudou um milímetro.

A firmeza teve preço. Escolta armada. Colete à prova de balas. Rotina alterada. Vida social reduzida. Dormidas estratégicas no fórum. Celulares trocados. Redes sociais encerradas. Ameaças reais. Ainda assim, não havia amargura. Não havia vitimização. Havia consciência. Ele sabia que enfrentava estruturas poderosas. E enfrentava com base técnica. Nunca com espetáculo. Era duro na sentença. Mas humano no trato. Em audiência, pedia desculpa por estar armado. Tratava do mais simples ao mais influente com o mesmo respeito. A rigidez era institucional. A alma, não.

E então chegou o tempo da aposentadoria. Não por cansaço intelectual. Não por derrota. Por escolha. Eu perguntei, vai se aposentar, lindo? Você tem tanto tempo pela frente. Ele respondeu com a tranquilidade de quem nunca confundiu função com identidade. “Faustinho, minha contribuição já foi dada”, disse. Não havia apego ao cargo. Não havia apego ao poder. Ele nunca viveu para o título. Viveu para a utilidade. Desprendimento raro. Enquanto tantos lutam para permanecer, ele soube a hora de sair. Sem drama. Sem negociação. Sem medo do depois.

Esse desapego dizia muito sobre ele. Marcel nunca precisou da autoridade para se sentir relevante. O poder não o seduzia. A toga não o definia. Ele ajudava pessoas antes da magistratura e continuou ajudando depois dela. Orientava. Aconselhava. Incentivava. Gostava de ver o outro crescer. Sua vida não orbitava em torno de status. Orbitava em torno de propósito. Havia nele uma compreensão silenciosa de que cargos passam. O que fica é a marca que se deixa nas pessoas.

Hoje, Sergipe perde um magistrado técnico e respeitado. A magistratura perde um colega firme. A sociedade perde um juiz que acreditava na força da lei. E nós, amigos, perdemos algo mais íntimo. Perdemos o riso contido. Perdemos o olhar sereno. Perdemos a presença segura de quem já tinha enfrentado queda, dor, ameaça e ainda assim permanecia equilibrado. Marcel não fazia barulho. Fazia diferença. E a diferença que ele fez não cabe em currículo. Cabe na memória de quem teve o privilégio de caminhar ao lado dele.

Ps. (Não é oficial mas o sepultamento deverá acontecer na Colina da Saudade à partir das 14 horas)

Respostas de 8

  1. Grande Juiz!
    Íntegro, mas sempre de bom humor!
    Quando ia para audiências em Lagarto, ia ve-lo e era recebida com um sorriso.
    Conversávamos e eu ia embora.
    É uma pessoa que deve estar em ótimo lugar.
    Deus já o recebeu com carinho

  2. Prezado, Fausto.
    Não nos conhecemos, sou primo do Marcel. Que texto incrível ! Eu poderia assinar embaixo de cada palavra, vírgula ou parágrafo.
    Obrigado pelo texto, uma homenagem ao nosso querido Marcel.

  3. Obrigado pelo relato incrível e sensível sobre meu tio. Ele fez justiça por várias mulheres, vítimas de violência doméstica, enquanto juíz da Lei Maria da Penha.

  4. Marcel, foi brilhante em tudo que fez, um exemplo de honestidade , competência e dedicação ! Que Deus o acolha na plenitude ! Fausto Leite, parabéns pela sua homenagem , muito bem redigido !

  5. Fausto

    Li o seu texto, tão emocionante quanto verdadeiro.

    Agradeço em nome do meu Irmão Marcel, das minhas Irmãs e em meu nome.

    Max Maia Montalvão

  6. Que lindo escrito sobre Marcel! Lindo e profundo como ele merece! Obrigada por nos representar e fazer viva a trajetória dele! Que Deus o tenha!

  7. Registro, com elevada consideração e respeito, minhas mais sinceras homenagens ao Dr. Marcel, cuja trajetória na magistratura se distinguiu pelo compromisso inabalável com a ética, a prudência e a fiel observância dos princípios que norteiam a verdadeira Justiça. Seu legado permanecerá como referência exemplar de retidão, saber jurídico e dedicação ao Estado de Direito.

    Estendo, igualmente, meus agradecimentos ao Faustinho, cujas palavras traduzem com precisão o significado de honradez e dignidade no exercício das funções ligadas à Justiça brasileira, valores que engrandecem as instituições e inspiram todos que militam na seara jurídica.

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