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Editorial: Mitidieri dorme com um olho no governo e outro no Pato

O tabuleiro político de Sergipe ganha contornos cada vez mais complexos quando o nome de Valmir de Francisquinho entra na equação. O “Pato”, como é chamado carinhosamente no interior, continua sendo um dos políticos mais populares do Estado, com um capital eleitoral que poucos conseguem reproduzir. Sua imagem de gestor trabalhador, que acordava antes do sol e só descansava depois da lua, segue viva no imaginário popular. Em qualquer feira do interior, basta ele aparecer para formar filas de abraços e selfies. Seu bordão, “em Sergipe sobra dinheiro público e falta gestor”, já virou mantra de quem vê nele uma liderança diferente, menos política e mais prática. E isso tem peso: Valmir tem algo raro, um eleitorado fiel, militante espontâneo, que vai além do voto e faz campanha por ele. Seu poder de transferência de votos é real e palpável e um simples aceno seu pode render mais do que um comício inteiro em alguns municípios.

É justamente por isso que as movimentações ao redor de seu nome têm deixado o Palácio dos Despachos em alerta. O cenário mais forte hoje é Valmir ser candidato ao governo com uma chapa robusta: Rodrigo Valadares disputando e Adailton Sousa para o senado, garantindo a musculatura política que Valmir precisa para avançar. Rodrigo, com sua postura de oposição direta, e Adailton, com a imagem de gestor técnico, formariam uma dobradinha que dá ao “Pato” ares de projeto consolidado.

Valmir, o “Pato da Serra”, é hoje o maior motivo de preocupação do governador Fábio Mitidieri. No Palácio, cada nova especulação sobre seus passos gera conversas em tom baixo e reuniões a portas fechadas. O governo balança só de ouvir seu nome e não é por acaso. Valmir reúne popularidade espontânea e um discurso direto que atravessa as bolhas políticas, falando com o povo sem intermediários. É esse poder de conexão que faz Mitidieri dormir com um olho no governo e outro nas pesquisas.

Mas e se Valmir não puder concorrer? É aqui que a trama engrossa. Nos bastidores, o Plano B já está desenhado: Adailton Sousa seria alçado à cabeça de chapa para o governo, enquanto Eduardo Amorim assumiria o lugar no Senado, completando uma composição que busca manter a unidade do grupo. A mudança, no entanto, traz um desafio evidente, Adailton não tem o carisma de Valmir. É técnico, disciplinado, fala como quem se emociona mais com números do que com palanques, agrada empresários e os eleitores mais pragmáticos, mas não arrasta multidões. O eleitor que grita “Pato!” na feira pode até votar em Adailton por lealdade a Valmir, mas dificilmente gritará “Adailton!” com o mesmo entusiasmo. A aposta é que a força de transferência de Valmir seja suficiente para manter o grupo competitivo.

E nesse xadrez político, um detalhe importante precisa ser dito: Emília Corrêa não fala pelo PL, fala por ela mesma. Quando a prefeita afirma que seus candidatos são Rodrigo Valadares e Eduardo Amorim, é uma escolha pessoal, ambos, afinal, não são filiados ao PL. A fala dela tem peso político, mas não representa a posição oficial do partido, que mantém sua estratégia própria.

Quiçá, um dos erros estratégicos de Fábio Mitidieri foi ter carimbado cedo demais o apoio ao governo Lula, algo que lhe cobra um preço alto nos bastidores. Mitidieri até engole o Planalto por necessidade, mas não suporta Rogério Carvalho, o grande vencedor das eleições internas do PT sergipano. Rogério passou como um rolo compressor por cima de Márcio Macedo, o queridinho de Fábio. Essa contradição fragiliza a narrativa de alinhamento governista de Mitidieri e alimenta a desconfiança tanto no PT quanto em aliados que enxergam nele um jogo duplo.

Em resumo, Valmir continua sendo o motor que faz esse tabuleiro político girar. Se entrar no jogo, vira o protagonista absoluto, capaz de roubar a cena e reescrever os roteiros que hoje parecem prontos. Se ficar de fora, ainda assim será o fiel da balança, aquele que, com um simples aceno e Valmir sabe usar bem esses acenos, pode empurrar um nome direto para o segundo turno. Em Sergipe, pode faltar dinheiro, pode faltar discurso afinado, mas não falta o “efeito Pato”. E no Palácio dos Despachos, cada vez que seu nome ecoa pelos corredores, o clima muda: sorrisos somem, reuniões ficam tensas e a sensação é de que qualquer passo em falso pode virar um presente para ele.

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