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Editorial: Mudou o discurso ou mudou a conveniência?

Há uma frase muito conhecida de Raul Seixas que diz: “Prefiro ser essa metamorfose ambulante”. Na música, ela representa liberdade de pensamento. Na política, porém, metamorfose exige explicação. Porque mudar de opinião é legítimo. O que o eleitor quer saber é porque mudou. Em dezembro de 2025, o governador Fábio Mitidieri afirmava que o governo federal não tinha entregado nenhuma obra relevante para Sergipe e que não havia o que comemorar. Poucos meses depois, passou a celebrar anúncios, investimentos, fotografias ao lado do presidente Lula e uma parceria institucional que hoje ocupa posição central no discurso do Palácio dos Despachos. A pergunta não é se pode mudar. A pergunta é o que mudou para justificar uma mudança tão profunda.

A política não é fotografia; é filme. E quem grava tudo hoje é a internet. Os vídeos continuam circulando, as entrevistas permanecem disponíveis e o eleitor passou a comparar o discurso de ontem com o palanque de hoje. Antes, a crítica era pela ausência de entregas. Depois vieram os anúncios de bilhões em investimentos, o projeto do VLT nascido no helicóptero da FAB, o pacote de obras estruturantes e uma aproximação cada vez maior com o governo federal. Boa parte dessas iniciativas ainda depende de estudos, licenciamento, contratos e execução. Isso não significa que sejam irreais. Significa apenas que anúncio e obra pronta são coisas diferentes.

O mesmo roteiro apareceu na construção da chapa política. Rogério Carvalho, que protagonizou embates públicos com o governador e fez críticas duras à sua administração, tornou-se aliado na disputa eleitoral. O próprio núcleo político do governo precisou reorganizar o discurso diante dessa nova realidade e Cauê vai ter que se debruçar para explicar o inexplicável. Na democracia, alianças mudam e adversários podem caminhar juntos. O que fortalece uma aliança não é a fotografia do aperto de mãos, mas a capacidade de explicar ao eleitor por que ontem eram adversários e hoje dividem o mesmo palanque.

O cidadão comum observa tudo isso com natural desconfiança. Não porque seja contra acordos políticos, mas porque espera coerência. Se em dezembro não havia motivo para agradecer ao governo federal, quando exatamente essa realidade mudou? Foi a chegada de obras concluídas? Foi a assinatura de novos convênios? Foi uma nova relação institucional? Ou foi a aproximação do calendário eleitoral? Essas perguntas não são da oposição nem da situação. São perguntas de qualquer eleitor que acompanha a vida pública com atenção.

É preciso reconhecer que dialogar institucionalmente com o governo federal é obrigação de qualquer governador, independentemente da cor partidária. Sergipe não pode perder investimentos por divergências políticas. Mas também é legítimo que a sociedade cobre consistência dos seus representantes. A política amadurece quando seus líderes conseguem explicar as mudanças de posição com argumentos claros, e não apenas com novos discursos. Afinal, confiança pública não se constrói apenas com anúncios; constrói-se também com coerência.

No fim, talvez o maior julgamento não venha dos adversários, mas da memória do eleitor. Obras serão medidas quando forem entregues. Investimentos serão avaliados quando saírem do papel. O VLT será cobrado quando deixar de ser projeto e virar trilho. E as alianças serão testadas quando precisarem enfrentar as próprias declarações do passado. A política permite mudar de caminho. O que ela não dispensa é uma boa explicação para quem continua caminhando ao lado da sociedade.

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