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Editorial: O STF, a PF e o caso Master: quando o processo vira uma coreografia

O episódio do caso Master ganhou um roteiro que nem o mais criativo dramaturgo do Judiciário ousaria escrever. Em poucos dias, o Brasil assistiu a uma sequência de atos digna de balé contemporâneo: a Polícia Federal entra em cena, o Supremo puxa a música, a PGR muda o ritmo, e no final ninguém sabe exatamente quem estava conduzindo o espetáculo.

O ministro Dias Toffoli começou a ópera com uma bronca pública na Polícia Federal por não cumprir, segundo ele, um prazo de 24 horas. Foi aquele momento clássico em que o maestro interrompe a orquestra no meio do concerto para reclamar que o violino entrou dois segundos atrasado. Só esqueceu de combinar que, em operações reais, o tempo não é medido por cronômetro de gabinete, mas por logística, segurança e surpresa.

Aí veio o ato seguinte, ainda mais pitoresco. Toffoli determinou que todo o material apreendido na operação fosse lacrado e acautelado sob custódia do Supremo. Sim, o STF virou, por um instante, uma espécie de cofre digital da República. Celulares, computadores, documentos e até dinheiro vivo passando pelo mesmo prédio onde se julga a Constituição. Faltou só instalar um balcão de “achados e perdidos” no Salão Branco.

A justificativa era nobre na teoria: preservar provas, evitar acessos indevidos, proteger a cadeia de custódia. Na prática, soou como aquela pessoa que pega o volante do carro dizendo “relaxa, eu sei dirigir”, mesmo estando no banco do passageiro.

E quando o público ainda tentava entender por que o Supremo estava fazendo o papel de guarda-volumes da Polícia Federal, veio o terceiro ato: Toffoli reconsidera e manda tudo para a PGR extrair e analisar os dados. Ou seja, o cofre mudou de endereço. A prova fez turismo institucional.

É difícil não rir para não chorar. O Estado brasileiro conseguiu transformar uma busca e apreensão em algo parecido com uma mala de aeroporto que roda na esteira errada: passa pela PF, vai para o STF, depois é despachada para a PGR. Enquanto isso, o cidadão olha e pergunta se alguém, em algum momento, vai abrir a mala e ver o que tem dentro.

Do ponto de vista constitucional, ninguém discute que um ministro do STF pode autorizar buscas e impor cautelas em processos sob sua relatoria. O problema não é o poder. É o uso performático desse poder. A Constituição não criou um Supremo para ser gerente de logística de investigação nem síndico de prova digital. Criou um tribunal para julgar, controlar legalidade e garantir direitos. Quando um ministro começa a dar ordem operacional para PF e depois reorganiza o destino das provas como quem muda móveis de lugar, algo saiu do trilho.

Nas redes sociais, a percepção foi imediata: parece mais uma disputa de protagonismo do que um esforço coordenado por eficiência. E isso, em um caso que envolve bilhões, instituições financeiras e possíveis crimes graves, é tudo o que o país não precisa.

A imagem que fica é a de um Estado que, quando deveria agir como máquina precisa, age como orquestra sem regente. Cada um toca no seu tempo, cada um puxa a melodia para si, e o público sai do teatro sem saber se assistiu a uma sinfonia ou a um ensaio mal ensaiado.

No fim, a questão não é se Toffoli podia fazer o que fez. A questão é se deveria. Porque quando o Supremo começa a brincar de polícia, a polícia vira figurante, a PGR vira despachante e a Justiça, que deveria ser solene e previsível, vira uma comédia de erros com toga. E em um país que já sofre de excesso de improviso, transformar investigações sensíveis em coreografia institucional é mais um luxo que a democracia brasileira não pode pagar.

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