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Editorial: Quando a pesquisa vira palanque

Desde o dia 6 de fevereiro até agora, 24 de abril, Sergipe já assistiu ao nascimento de 18 pesquisas eleitorais registradas. Dezoito. Em menos tempo do que muita obra pública leva para sair da placa inaugural, já tivemos quase um álbum completo de levantamentos. E o detalhe mais curioso não é a quantidade. É a coreografia. Dessas 18 pesquisas, 14 foram registradas por apenas cinco institutos, que se revezam com a disciplina de quem participa de escala de plantão. Um lança hoje, outro amanhã, outro semana que vem. Parece menos instituto de pesquisa e mais rodízio de churrascaria: muda o garçom, mas a carne servida é sempre a mesma.

Os advogados do Republicanos, entre eles Dr. Romerito Trindade e Unaldo, levantaram um ponto que politicamente chama atenção e juridicamente merece lupa: sempre que ocorre um fato relevante na vida política de Valmir de Francisquinho, uma nova pesquisa aparece como quem recebe notificação automática. Valmir consegue liminar no STJ e volta ao jogo da elegibilidade? Dois dias depois, pesquisa. Vai à televisão e sinaliza que pode pedir licença da Prefeitura de Itabaiana para rodar o Estado? Outra pesquisa. Renuncia? Mais uma pesquisa. Sai uma nova decisão favorável? Outra pesquisa registrada. Parece menos cronograma estatístico e mais sirene de emergência eleitoral.

O padrão descrito é quase didático. A lógica seria simples: sempre que um fato político fortalece Valmir no imaginário popular, entra em campo uma nova fotografia tentando dizer ao eleitor que nada mudou, que tudo continua exatamente como antes e que o governador Fábio Mitidieri segue confortavelmente na frente. É quase um serviço de contenção emocional. O problema é que pesquisa não foi criada para servir de ansiolítico de palanque. Foi criada para medir realidade. Quando ela passa a funcionar como extintor de incêndio político, a estatística começa a pedir exoneração.

E no meio dessa novela aparece a estrela jurídica da semana: a pesquisa SE-06052/2026 da CTAS Capacitação e Consultoria, suspensa pelo TRE após representação do Republicanos. O motivo não foi ideologia nem teoria da conspiração. Foi contabilidade básica com CPF e CNPJ. A empresa declarou que a pesquisa custou R$ 12 mil e foi feita com recursos próprios, mas não apresentou o DRE, o Demonstrativo do Resultado do Exercício, documento obrigatório pela Resolução TSE nº 23.600/2019. Em vez disso, apresentou apenas balanço patrimonial, como quem leva exame de vista para justificar cirurgia cardíaca. A Justiça respondeu com um elegante e jurídico “não”. 

O mais curioso é que, após a suspensão, o próprio instituto pediu o cancelamento da pesquisa barrada e já apareceu com outra nova. É quase romântico. A pesquisa foi declarada irregular, saiu pela porta da frente do TRE e voltou pela janela com roupa nova e o mesmo perfume. Quando isso acontece, o eleitor não pergunta mais sobre margem de erro, pergunta sobre roteiro. Porque a sensação que fica é a de que a pesquisa não está tentando descobrir quem lidera, mas tentando convencer o eleitor de quem deveria liderar.

E aqui vale repetir algo básico: DRE não é frescura de contador, nem capricho burocrático da Justiça Eleitoral. Ele serve para provar que a empresa realmente tem capacidade econômica para bancar a pesquisa com recursos próprios. Pesquisa eleitoral influencia mercado, alianças, candidaturas, humor de investidor e até decisão de quem vai ou não vai para a disputa. Não é panfleto de esquina. Quando falta transparência no financiamento, não estamos diante de erro de digitação. Estamos diante de uma rachadura na credibilidade. E credibilidade não se recompõe com nota de esclarecimento em PDF.

Enquanto isso, a pesquisa W1 apareceu como aquele parente sincero no almoço de família: pode até causar desconforto, mas pelo menos fala o que muita gente já estava vendo na rua. Registrada sob o número SE-09767/2026, ela colocou Valmir de Francisquinho com 39,9% no cenário estimulado, contra 35,3% de Fábio Mitidieri. No espontâneo, Valmir também lidera. No segundo turno, vence por 45% a 40,4%. E, como sobremesa, Fábio ainda lidera a rejeição com 21,8%, contra 12,8% de Valmir. Ou seja: além de correr atrás no voto, ainda carrega a faixa de campeão no “não voto de jeito nenhum”. 

A repercussão da W1 foi forte justamente porque conversa com a sensação real das ruas. Ela dialoga com a feira de Itabaiana, com o comerciante de Lagarto, com o taxista de Aracaju e com aquele eleitor que não sabe citar resolução do TSE, mas sabe perfeitamente quando uma pesquisa está com cheiro de release oficial. Como disse um comentário que viralizou em podcast político: “o governador pode até estar com todos os políticos no palanque, mas esqueceu que o povo não está no palanque dele. E palanque, por mais bonito que seja, não vota.”

Pesquisa boa não é a que agrada candidato. É a que suporta auditoria, contraditório e desconfiança pública. Quando cinco institutos produzem quatorze das dezoito pesquisas e todas caminham na mesma direção, o mínimo que se exige não é aplauso, é fiscalização. Porque estatística séria não funciona no sistema “confia em mim”. Ela exige transparência. E transparência não gosta de consórcio silencioso.

No fim, a pergunta não é quem está na frente hoje. A pergunta é quem está medindo isso com honestidade. Porque pesquisa que nasce com vício não informa, influencia. E quando a estatística deixa de ser ciência para virar instrumento de conveniência, ela não mede voto, mede interesse. E interesse político, em Sergipe ou em qualquer lugar do Brasil, continua sendo o partido mais antigo, mais organizado e mais perigoso de todos.

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