PUBLICIDADE

Editorial: Porto da Folha virou capital da vaquejada política do sertão

Porto da Folha, terra do aboio forte, da vaquejada raiz, do Velho Chico correndo preguiçoso no fundo do sertão e da política feita no grito da feira, resolveu entrar definitivamente para o Guinness Book da confusão política sergipana. O município virou uma mistura de novela mexicana, campeonato de vaquejada e reunião de condomínio em dia da falta d’água, ou Iguá. Tem cassação, prefeito interino, discurso emocionado, rompimento, governador falando duro, aliado mudando de lado e eleitor acompanhando tudo no rádio como quem escuta final de campeonato do Sergipano.

No meio desse redemoinho apareceu Everton da Saúde fazendo um discurso digno de encerramento de novela das nove. Agradeceu vereadores, aliados, família, os 10.589 votos, falou de Deus, de gratidão e praticamente só faltou entrar uma sanfona triste enquanto o drone mostrava o Rio São Francisco ao pôr do sol. O homem ainda largou aquela clássica frase sertaneja de político que pretende continuar vivo no jogo: “eu voltarei”. Quando um político fala isso no sertão, até o cachorro da praça para de latir para ouvir o resto da história.

Só que o clima emocional vinha acompanhado de uma bomba jurídica. O TRE cassou os mandatos de Everton e do vice por abuso dos meios de comunicação durante a eleição. Depois veio recurso, suspensão no TSE e Porto da Folha entrou naquele looping político onde ninguém sabe exatamente quem sai, quem entra, quem volta e quem já está mandando imprimir santinho para a próxima eleição. No sertão sergipano, a política não espera nem a poeira baixar. O sujeito ainda está descendo a rampa da prefeitura e já tem liderança calculando voto em povoado.

E aí entra Fábio Mitidieri, que resolveu colocar o chapéu na mesa e falar o que pensa. Disse claramente: “eleição se ganha na urna”. Disse também que pediu voto para Tiago Santana em 2024, que caminhou junto, mas que “a população escolheu Everton da Saúde prefeito”. E completou: “eu ganhei minhas eleições na urna e a que perdi, perdi na urna”. A frase caiu no sertão igual foguete de São João em curral fechado. Porque imediatamente começou a circular a pergunta que o sertanejo faz sem rodeio: “então deixa Valmir disputar também, ué?”. O povo do interior pode não usar linguagem jurídica, mas percebe incoerência política mais rápido do que muito cientista político de gabinete climatizado.

E foi aí que Porto da Folha entrou no modo “cada curral escolhe seu lado”. Porque, no instante em que Tiago Santana rompe com o agrupamento governista e desembarca no palanque de Valmir de Francisquinho, a eleição deixa de ser municipal e vira estadual. O governo imaginava administrar uma crise local e acabou entregando combustível político para Valmir rodar o sertão inteiro. O interior funciona diferente da capital. No interior, o eleitor quer saber quem está com quem. É quase um campeonato de camisa de time. E isso explica por que a fala de Fábio incendiou tanto o ambiente político.

No meio dessa fumaça toda apareceu Venâncio Fonseca, praticamente o comentarista premium da política sergipana. Venâncio conhece Sergipe de frente pra trás, de trás pra frente e ainda sabe quem brigou com quem desde a época em que rádio AM dominava eleição no Estado, assim bem disse Jailton Santana, Narciso Machado, Pedrinho Barreto e outros que tomavam café em Zé Buraqueiro, na feira do Augusto Franco. Venâncio, com a tranquilidade de quem já viu mais rompimento do que casamento político durar, resumiu tudo numa frase simples e brilhante: “no interior, as pessoas têm lado”. E isso muda completamente a eleição. Porto da Folha terá lado. Lourdes terá lado. Itabi terá lado. Monte Alegre terá lado. O sertão virou uma gigantesca vaquejada eleitoral.

Aliás, muita gente dentro do próprio agrupamento governista comenta reservadamente que, se Venâncio tivesse sido o grande articulador político desde o início do governo, talvez o ambiente estivesse muito mais organizado hoje. Porque Venâncio aproxima, acomoda, escuta e entende o ego das lideranças como poucos. Já outros personagens, como aqueles que chamam de “Peito de Pombo” acabaram criando mais afastamento do que união. Nos corredores do governo, há quem diga em tom de humor sertanejo que quanto mais tempo certas figuras ficarem no sul do Estado, mais tranquilo fica o clima político palaciano. Tem gente praticamente acompanhando o GPS para confirmar se o carro ainda está a uma hora e meia da capital.

Enquanto isso, Miguel e Doutor Marcos continuam aparecendo como peças centrais desse tabuleiro sertanejo. Porque no sertão política não se faz apenas em reunião oficial. Se faz em varanda, em almoço de fazenda, em café no fim da tarde e em conversa de beira de estrada. O povo não acredita que um terremoto político desse tamanho aconteça sem bastidor pesado. E a pergunta já corre na feira, no açougue, na farmácia e até no curral: “Miguel vai pra onde agora?”. No interior, quando político rompe, ninguém pergunta o motivo. Pergunta logo qual será o novo palanque.

O mais divertido é que Porto da Folha parece ter desenvolvido uma habilidade rara de transformar qualquer semana comum em temporada completa de drama político. O município já não vive eleição de quatro em quatro anos. Vive eleição emocional em tempo integral. Hoje o sujeito é aliado. Amanhã rompe. Depois aparece sorrindo tomando café no mesmo lugar. Política sertaneja funciona igual banda de forró antigo. O músico sai brigado, muda de grupo, grava música falando mal e no São João seguinte está tocando junto novamente.

No fim das contas, Porto da Folha honrou o próprio nome. Virou folha ao vento político do sertão. Uma hora sopra para um lado. Depois muda completamente de direção. E no meio dessa ventania toda, Fábio falou duro, Tiago rompeu, Everton saiu emocionado, Valmir cresceu no interior, Venâncio virou bússola política do sertão e o eleitor ficou assistindo a tudo com café na mão e aquele sorriso irônico típico de quem conhece a política sergipana melhor do que muito marqueteiro importado de Brasília.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *