Só em Sergipe a política consegue transformar antecipação em confusão e bastidor em briga de condomínio. Antes mesmo de a eleição acontecer, dois personagens já disputam no grito a cadeira de presidente da Assembleia Legislativa, como se o mandato viesse junto com o diploma de eleito. De um lado, Jorginho Araújo. Do outro, Cristiano Cavalcante. No meio, um governador silencioso demais para quem deveria segurar as rédeas.
Jorginho retorna à Assembleia depois de uma longa temporada na Casa Civil, cargo em que passou mais tempo controlando portas do que abrindo caminhos. Pouco legislou, pouco dialogou e criou uma barreira tão eficiente entre o governador e a base que muitos aliados precisaram de senha, paciência e, às vezes, milagre para serem recebidos. Seu estilo é conhecido: atende quem quer, quando quer, se quiser. Não por acaso, sua saída da Casa Civil foi comemorada em silêncio por boa parte do grupo governista, que respirou aliviado ao ver o corredor desobstruído. Agora, Jorginho volta ao Parlamento como se nada tivesse acontecido, já mirando a presidência, apostando mais na memória curta da política do que na soma de apoios reais.
Do outro lado está Cristiano Cavalcante, deputado bem votado, articulado, com trânsito direto no gabinete do governador. É visto como olhos e ouvidos do Palácio dentro da Assembleia, alguém que goza de confiança plena. O problema é que confiança não substitui temperamento. Cristiano tem ímpeto, pressa e uma dificuldade crônica de tolerar quem cresce ao redor. Não gosta de disputa lateral, muito menos de concorrência em seu território político. O atrito recente com Carlinhos do Brejo Grande, o Saruê, que ganhou musculatura eleitoral no Baixo São Francisco, expôs isso com clareza. Cristiano não recua fácil, não baixa o tom e não disfarça o incômodo quando alguém avança fora do script.
Ambos carregam apelidos que, curiosamente, explicam bem o ambiente. Jorginho, a Muriçoca, incomoda, aparece quando menos se espera e deixa marca. Cristiano, o Guaxinim, vigia tudo, reage rápido e não gosta de invasão de espaço. O problema é que nenhum dos dois parece disposto a lembrar do básico: antes de brigar pela presidência da Assembleia, é preciso ganhar a eleição. Ganhar bem. Construir maioria. Convencer pares. Presidência não se herda, se articula.
Enquanto isso, o governador Fábio Mitidieri assiste em silêncio. Um silêncio que não é neutro. Ao antecipar sua chapa majoritária, o governador abriu todas as comportas ao mesmo tempo e agora vê aliados se digladiando como se o futuro já estivesse garantido. Falta pulso. Falta comando. Falta alguém dizer o óbvio: primeiro o dever de casa, depois a disputa interna. Governar base política exige liderança ativa, não torcida discreta.
A comparação com Marcelo Déda surge naturalmente nos bastidores. Déda não terceirizava conflito. Pegava a rédea, chamava para a mesa e resolvia. Mitidieri, por ora, prefere o método do deixa correr, que costuma terminar em enchente. E enchente política raramente molha só quem briga. Molha o governo inteiro.
Para piorar, a próxima Assembleia não será igual à atual. Novos nomes devem entrar, forças podem se rearranjar e o ambiente tende a ser menos dócil. Se o governo entrar nesse cenário com base rachada, vaidades infladas e disputa antecipada, o risco de desconforto institucional é real. Tudo hoje é condicional. Se ganhar a eleição. Se mantiver maioria. Se conseguir pacificar a tropa. Política não gosta de tantos “ses” ao mesmo tempo.
A lição recente de Aracaju deveria servir de alerta. Subestimaram adversários, superestimaram controle e perderam a eleição. Combinar o jogo sem ouvir o povo nunca deu certo. Combinar a presidência da Assembleia antes do voto popular é repetir o erro com mais arrogância e menos memória.
Jorginho e Cristiano precisam entender que liderança se constrói, não se impõe. E o governador precisa lembrar que base aliada não se administra no silêncio. Se continuar assistindo à briga como espectador, corre o risco de descobrir tarde demais que, enquanto dois brigam pela cadeira, alguém de fora pode sentar nela.




