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Editorial – Quem não entende a média perde a vaga

Em Sergipe, a eleição para deputado federal sempre foi vendida como proporcional, mas qualquer pessoa que já olhou uma planilha sabe que o sistema funciona como uma eleição majoritária disfarçada. Para sobreviver, não basta fazer votos. É preciso fazer contas. Desde 2022, a matemática assumiu o papel principal e deixou claro quem realmente manda na história. O quociente eleitoral estacionou nos 150 mil votos, mas a lógica das cadeiras parece agir em outro planeta. O eleitor escolhe seus favoritos, mas quem define quem ganha ou perde é uma entidade invisível chamada média das sobras, essa senhora elegante e vingativa que distribui vagas como quem distribui recados políticos.

Em 2022 Sergipe mostrou ao país uma regra simples. Quem bate nos 200 mil votos como partido entra na festa com dois eleitos. Quem não bate fica atrás da porta ouvindo o barulho. Foi assim com o União Brasil, que com 220.514 votos transformou Yandra Moura em uma puxadora imperial e levou Rodrigo Valadares no embalo. Já o PSD repetiu a façanha com 164.277 votos, número que não chega nem perto dos 300 mil previstos pela matemática teórica, mas que na prática valeu duas cadeiras. A mensagem era clara. O quociente dita as regras, mas quem manda mesmo é o puxador.

E essa lógica segue firme enquanto 2026 se aproxima como uma das eleições mais apertadas que Sergipe já viu. Os partidos sabem que não basta montar uma chapa. É preciso criar um ecossistema em que cada voto importa. Formar uma chapa competitiva virou um desafio quase surreal, porque cada candidato precisa cumprir uma função específica. Quem puxa, quem complementa, quem dá lastro regional, quem não atrapalha e, acima de tudo, quem não suga votos do puxador sem entregar densidade própria. É o famoso candidato peso morto que toda legenda aprende a identificar tarde demais.

A disputa de 2026 será uma reedição aprimorada de 2022, com personagens mais experientes, partidos desconfiados e uma matemática ainda mais feroz. O PP de Thiago de Joaldo e de Laércio Oliveira, por exemplo, vive um dilema diferente. Em 2022, com 114.693 votos, o partido entrou pela porta lateral da matemática, aquela que só aparece quando a concorrência implode no caminho. Thiago, com 45.698 votos, virou deputado mais por obra da dispersão adversária do que por força da legenda. Para 2026 a equação muda completamente agora que Ícaro de Valmir e Thiago devem migrar para os Republicanos. A engenharia política montada pelo grupo de Edvan Amorim, somada ao movimento de Valmir de Francisquinho e ao acordo com Marco Pereira, reposiciona o partido no tabuleiro eleitoral.

Sem Gustinho, que deve sair da legenda e levar consigo seu capital eleitoral, os Republicanos passam a apostar tudo numa estrutura de peso formada pela migração coletiva do antigo PL e de toda a máquina articulada por Valmir e Edvan. É aqui que a matemática começa a sorrir. Somente Ícaro, com seus quase 75 mil votos, e Thiago, com potencial estimado de 60 mil votos, já se aproximam dos 150 mil votos, o equivalente a um quociente inteiro. Se somarmos a eles o voto orgânico do grupo Amorim e Francisquinho, que historicamente entrega volume e coordenação estadual, os Republicanos passam a flertar com a faixa dos 200 a 220 mil votos. É exatamente aí que Sergipe revela sua mágica. Essa é a faixa em que a segunda vaga aparece naturalmente pelas médias, como aconteceu com o PSD e o União Brasil.

O novo Republicanos não depende de um puxador isolado. Depende da força conjunta de dois candidatos competitivos e de uma estrutura política unificada. O cálculo interno é simples e politicamente sedutor. Ícaro assume o papel de puxador, Thiago consolida a segunda força da chapa e o bloco Amorim entrega o lastro necessário para transformar a legenda em uma das poucas com capacidade real de eleger dois deputados federais em 2026. Foi essa a promessa feita a Marco Pereira e, pela primeira vez, a matemática não só confirma a viabilidade como aponta para uma disputa direta pelo protagonismo eleitoral do Estado. Ah! Ainda temos  o delegado André David que possivelmente terá o apoio da prefeita Emília Correia.

Se o enredo mudar e Gustinho decidir permanecer no Republicanos com seus quase 72 mil votos, o jogo sofre uma reviravolta digna de final de novela. Com ele dentro, o partido deixa de depender apenas da dupla Ícaro e Thiago e passa a operar com três nomes acima da barreira dos 60 mil votos. Isso é raríssimo em Sergipe e matematicamente devastador. Gustinho sozinho já assegura metade de um quociente. Somado aos votos de Ícaro e ao potencial de Thiago, o Republicanos ultrapassa com naturalidade os 200 mil votos e entra não apenas na zona de duas vagas, mas também no território onde pode disputar até uma terceira vaga por média, dependendo da fragmentação dos demais partidos. Com Gustinho dentro, a legenda vira um trator eleitoral capaz de redesenhar todo o equilíbrio das chapas.

No PT, a história era uma ópera matemática afinada. João Daniel e Eliane Aquino formaram um dueto de 135 mil votos nominais, dividindo o Estado e garantindo 157.486 votos totais, suficientes para transformar o partido em uma máquina. Mas 2026 rompe essa harmonia. Eliane não será candidata e deve retornar a Sergipe para apoiar Márcio Macedo na disputa federal. É aqui que a aritmética começa a tossir. Márcio tem trajetória, militância e função partidária, mas não tem o brilho eleitoral de Eliane nem a capilaridade social que inflou sua votação. Ele chega mais como candidato de estrutura do que como fenômeno espontâneo. Isso preocupa o PT. Eliane entregou mais de 66 mil votos. Márcio pode não chegar aos 60 mil necessários para manter a simetria que garantiu uma vaga em 2022. Sem o contrapeso, João Daniel fica sozinho carregando o piano e a chapa perde densidade. O PT sempre soube que sua força está na soma, não no puxador isolado. Sem Eliane, o equilíbrio se quebra e a cadeira do PT deixa de ser consequência natural para virar desafio estatístico.

No PSD, a matemática volta a sorrir com ironia, mas desta vez é uma ironia amarga. Em 2022, sem um mega puxador, o partido superou o QE e pegou uma sobra. Fábio Reis e Katarina Feitosa mostraram que quando os votos são distribuídos verticalmente, a média sobe e a segunda vaga aparece. Só que 2026 redesenha o mapa com um terremoto político. O governador Fábio Mitidieri tirou sua joia eleitoral, Cláudio Mitidieri, do PSD e o colocou no PSB. Ele deve estrear como candidato federal com uma votação projetada na casa dos 130 mil votos. É um puxador de elite, desses que redesenham qualquer chapa. E ao fazer isso, o governador enfraqueceu dramaticamente o próprio partido. O PSD, que antes brigava por duas vagas, agora corre risco real de não eleger duas e, em cenário pessimista, não eleger sequer uma. Sem puxador capaz de bater 70 mil, entra frágil. Com alguém chegando a 90 mil, vira candidato sério. Mas com Cláudio puxando para outro partido, o PSD se encontra exatamente no meio termo mais perigoso do sistema proporcional. Forte demais para desaparecer, fraco demais para sobrar.

O União Brasil vive um dilema elegante e perigoso. Yandra Moura continua sendo seu grande motor eleitoral. Se repetir algo próximo de sua votação de 2022 ou mesmo entregar 100 mil votos, garante sua vaga com tranquilidade. O problema é o entorno. Rodrigo Valadares está migrando para o PL para disputar o Senado. Era o segundo pilar da chapa. Seus quase 50 mil votos só existiam eleitoralmente porque Yandra puxava a legenda para cima. Sem ele, o União passa a depender quase exclusivamente da capacidade dela repetir a votação estrondosa de 131 mil votos. Se mantiver números altos, a legenda volta a disputar duas vagas com chances reais. Se cair para a faixa dos 70 ou 80 mil, o partido retorna ao seu tamanho original de uma cadeira. Yandra continua sendo a alma da chapa. O restante do União continua sendo a incógnita que decide se o partido terá duas vagas ou apenas uma.

E é justamente nessa encruzilhada matemática que surge a carta escondida no bolso do União e do PP. A federação entre os dois partidos, que já está em andamento, muda completamente o jogo. Se caminhar para o desfecho natural, Laércio Oliveira passa a enxergar uma rota de sobrevivência eleitoral do seu grupo político. Com Yandra puxando votos de um lado e o PP entrando com densidade estrutural do outro, a federação cria uma chapa ampla o suficiente para disputar duas cadeiras com musculatura real. E mais: abre espaço para o movimento mais estratégico do tabuleiro, Laércio elegendo seu sobrinho Levi Oliveira para deputado federal. Numa federação forte, Levi não dependeria apenas de seu desempenho pessoal, mas da soma de votos do bloco liderado por Yandra, o que transforma um sonho difícil em um projeto viável. 

Entre todos os partidos que caminham para 2026, o PL é o que corre o maior risco de não eleger absolutamente ninguém. Em 2022 a legenda tinha Ícaro de Valmir, que fez quase 76 mil votos e puxou sozinho todo o partido, que acabou somando 130.253 votos. Hoje o PL está esvaziado. As principais lideranças migraram para os Republicanos e para o Podemos e a legenda ficou sem estrutura para disputar o quociente. O futuro do PL passa pelas mãos de Rodrigo Valadares, que tenta reconstruir uma chapa em poucos meses. A tarefa é quase cirúrgica. É necessário montar uma chapa forte com nomes capazes de competir por ao menos uma vaga. Rodrigo lançou sua esposa, a vereadora Moana Valadares, que teve uma votação expressiva em Aracaju com mais de cinco mil votos, mas eleição para vereador é municipal. Eleição para deputado federal é estadual e exige multiplicar a votação por dez ou quinze vezes. Rodrigo conta com a força simbólica de Bolsonaro, mas precisa lembrar que Bolsonaro não será candidato em 2026. Isso tira do PL o seu maior motor de votos. Sem Ícaro, sem base, sem puxador e sem a força presidencial, o partido corre o risco de desaparecer do mapa federal. Se Rodrigo não montar uma chapa consistente, com pelo menos um nome capaz de atingir cinquenta ou sessenta mil votos, o PL pode viver seu primeiro ciclo eleitoral sem qualquer representação na Câmara. É a matemática mais cruel possível. Quem perde puxador perde quociente. Quem perde quociente perde a cadeira. Quem perde a cadeira perde a voz.

Olhando para 2022 e projetando 2026, fica claro que Sergipe vive uma eleição em que nenhum deputado está totalmente seguro, nem mesmo os de votação alta, porque o sistema proporcional daqui transforma individualidade em dependência. Um deputado só se reelege se sua chapa for bem montada. Um puxador só puxa se o partido souber compor. Um partido só sonha com duas vagas se tiver disciplina eleitoral. Todos vivem sob a tirania dos 200 mil votos, a fronteira invisível entre ser coadjuvante ou protagonista.

No final das contas, montar uma chapa para deputado federal em Sergipe é uma arte trágica. Se coloca candidato fraco, perde votos. Se coloca candidato forte demais, cria guerra interna. Se coloca candidato demais, pulveriza. Se coloca de menos, perde densidade. Se não tem puxador, morre. Se tem puxador demais, briga. Se tem um puxador isolado, a média cai. Se tem muitos médios e nenhum forte, não entra nas sobras.

Sergipe exige equilíbrio. Sergipe pune improvisação. Sergipe recompensa quem respeita a matemática. E 2026 será o teste definitivo dessa equação. No fim, só duas coisas elegem deputado federal em Sergipe. A urna e a calculadora. E a calculadora costuma vencer.

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