Na Escritura, Samuel advertia os reis para que não corrompessem o povo; hoje, o Samuel da política justifica contratos em nome da lei. E a dignidade humana, que o profeta dizia ser imagem de Deus, virou apenas discurso de campanha.
Amanhã é o Dia de Finados, o dia em que o Brasil se veste de silêncio, acende velas e conversa com a memória. Mas, em Nossa Senhora do Socorro, o silêncio dos mortos vem sendo coberto por um ruído incômodo: o da burocracia, dos contratos e da incoerência política. Enquanto famílias se preparam para visitar os túmulos dos seus, descobrem que nem o descanso final escapou à confusão moral e administrativa que tomou conta da cidade.
Depois de dez meses de gestão, a prefeitura anunciou o que todos em Sergipe já sabiam: nenhum dos sete cemitérios públicos de Socorro possui licença ambiental. A constatação tardia, apresentada como se fosse descoberta inédita, virou justificativa para uma decisão que cheira mais a conveniência do que a prudência. Em vez de corrigir o problema de forma técnica e transparente, o governo municipal optou por firmar um contrato de cinco milhões de reais com o cemitério particular La Pace, empreendimento que, segundo consta, tem entre seus sócios o próprio secretário de Obras da cidade. A administração pública, que deveria cuidar dos vivos, agora se vê envolvida em um negócio que transforma a morte em oportunidade comercial.
O discurso oficial fala em zelo ambiental e dignidade no sepultamento. Bonito no papel, convincente na retórica, mas incoerente na prática. A lei ambiental, que deveria proteger a vida, está sendo usada como pretexto para empurrar os mortos para longe de casa. A dignidade, que deveria guiar as ações do poder público, virou argumento de marketing. O que falta não é licença ambiental, é licença moral. A dignidade não se terceiriza, não se compra por contrato e não se mede por metro quadrado de jazigo. Ela se pratica no respeito à história, à memória e à sensibilidade humana, três valores que parecem ter sido exumados junto com o senso de gestão.
Em Socorro, a proibição de novos sepultamentos nos cemitérios municipais atingiu não apenas famílias tradicionais, mas o próprio coração da cidade. Os Moreira, os Donald, os Pequeno, os Garcia, os Melo, os Rocha, os Gomes e até tantas outras famílias que construíram a identidade do município agora ouvem que não poderão mais enterrar seus mortos ao lado dos antepassados. Deverão ir até um terreno privado à margem da BR, longe da sede, longe dos bairros que formam a alma da cidade, para sepultar seus entes e, três anos depois, receber o corpo em um saco preto. É assim que a prefeitura define dignidade: distância, descaso e desumanização.
O cemitério público é mais do que um espaço físico. É um território simbólico, o espelho da cidade que fomos e da que ainda somos. Cada nome gravado em pedra é uma biografia que continua falando. Retirar o povo desse espaço é amputar o elo com o passado, é transformar o luto em logística, é tratar a ancestralidade como problema administrativo. Nenhum argumento ambiental sustenta esse grau de frieza. Se o poder público tivesse a mesma agilidade para resolver a falta de médicos, o abandono das escolas e a escuridão das ruas que teve para fechar as portas dos cemitérios, Socorro talvez fosse hoje uma cidade viva, e não um laboratório de omissões.
E há um ponto que torna tudo ainda mais doloroso: o prefeito que toma essas decisões não é de Socorro, não mora em Socorro e, com toda certeza, não será enterrado em Socorro.Talvez por isso lhe falte o entendimento do que significa pertencer. Pertencer é saber que sob cada pedra há uma história, que o chão da cidade é feito de gente, e que os mortos de ontem sustentam o sentido de quem vive hoje. Uma pergunta, portanto, se impõe: será que o sogro do prefeito, homem de família tradicional, gostaria de ser enterrado longe dos seus? Será que as famílias Melo, Moreira, Pequeno e tantas outras desejam o mesmo destino, um descanso distante, impessoal, separado de seus ancestrais? Será que o povo de Socorro, que nasceu, viveu e criou seus filhos aqui, merece ser tratado com esse desrespeito, como se sua história pudesse ser transferida por alvará?
O prefeito pode até não entender a dor de quem carrega o sobrenome e o endereço da cidade no mesmo peito, deveria ter consultado o sogro antes dessa decisão. Mas o povo entende. Porque quem mora em Socorro sabe que não se trata apenas de enterrar corpos, trata-se de preservar vínculos, raízes e memória. Aquele que não tem raízes não entende o peso simbólico da terra, e talvez por isso a trate como solo negociável. E o que é a política, senão o cuidado público com as raízes de uma comunidade?
Na Bíblia, a palavra “dignidade” aparece associada à imagem e semelhança de Deus, ao valor intrínseco de cada ser humano, independente de status, riqueza ou poder. Dignidade, no sentido bíblico, é respeito, é honra, é amor em forma de atitude. O Livro de Provérbios fala da mulher virtuosa vestida de força e dignidade; o Evangelho fala do servo que é fiel no pouco; as cartas de Paulo falam do decoro, da integridade e da honestidade como vestes do espírito. E em todas as passagens, dignidade não é discurso, é prática. É viver conforme o que se prega. Dizer que se age em nome da dignidade, enquanto se ignora o sofrimento coletivo, é transformar a fé em formalidade e o sagrado em expediente.
Amanhã, no Dia de Finados, enquanto o povo se dirige aos cemitérios para limpar as sepulturas, levar flores e lembrar quem partiu, a prefeitura poderá dizer que, legalmente, tudo está em ordem. Mas o que estará em ordem é apenas o papel; o que estará em desordem é o sentimento. O povo não visita apenas os mortos, visita a si mesmo. E o que encontrará é a imagem de uma cidade que não reconhece o valor do seu passado e que entrega o futuro ao improviso e à conveniência.
Dignidade não começa na cova. Começa na escola que ensina, no hospital que atende, na rua iluminada, no transporte que chega. Começa na honestidade com que o governo trata o povo. Quando até o descanso dos mortos precisa de contrato, é sinal de que a vida pública perdeu o pulso. O maior crime ambiental que uma cidade pode cometer é o desmatamento moral de suas instituições e em Socorro, as raízes da confiança estão sendo arrancadas uma a uma.
Neste Dia de Finados, talvez a pergunta que ecoe nos cemitérios não seja sobre quem morreu, mas sobre quem ainda vive. Porque, diante de tanta omissão, o que parece morto não são apenas os que estão sob a terra, mas também o senso de responsabilidade de quem governa sobre ela. E o que o povo de Socorro precisa decidir, em meio às flores e velas deste 2 de novembro, é se vai continuar enterrando seus entes queridos ou a própria dignidade.
Dignidade não é discurso de rádio, é gesto público. E quando o poder precisa terceirizar até o descanso, é sinal de que a cidade inteira precisa acordar. E você, morador de Socorro, o que pensa dessa mudança? Acha justo que o povo não possa mais enterrar seus mortos onde repousam seus antepassados? Deixe sua opinião. Porque o silêncio dos vivos, neste caso, pode ser mais trágico do que o silêncio dos mortos.




