É inegável: João Eloy virou quase patrimônio tombado da segurança pública em Sergipe. O homem atravessou governos como quem atravessa faixa de pedestre em dia de pouco movimento. Passou por Marcelo Déda, Jackson Barreto, Belivaldo Chagas e segue firme no governo de Fábio Mitidieri. É o famoso coringa institucional: muda o governo, fica o Eloy. E mérito não falta, diga-se. A segurança melhorou, os números responderam, o povo reconhece. Mas convenhamos, até time campeão precisa mexer no elenco de vez em quando, senão vira museu.
E não dá para falar desse ciclo sem citar o coronel Alexsandro Ribeiro, que fez algo que parecia lenda urbana dentro da Polícia Militar: promoveu mais de três mil policiais em pouco mais de três anos. Teve gente que passou décadas esperando promoção e, de repente, viu o nome subir mais rápido que gasolina no governo Lula. Foi um choque de valorização, desses que levantam moral de tropa e rendem aplauso até de quem costuma criticar. Ponto para ele, sem discussão.
Agora vem o detalhe que o governo insiste em empurrar para debaixo do tapete molhado: não adianta ter a melhor segurança do Brasil se o cidadão abre a torneira e não sai nem esperança. Segurança é fundamental, claro que é. Mas água, meu amigo, é sobrevivência. É banho, é comida, é dignidade. É o mínimo do mínimo. E aí começa a contradição que ninguém consegue mais disfarçar com coletiva e helicóptero. O governo parece ter escolhido um roteiro curioso. Investe discurso, energia e propaganda na segurança pública, enquanto a crise hídrica vira coadjuvante incômoda. Só que o eleitor não é bobo. Ele faz conta simples: não adianta estar seguro dentro de casa se não tem água para dar descarga. Não adianta prender bandido e liberar a seca. Segurança pública não substitui segurança vital.
E é aqui que entra um ponto mais maduro do debate. João Eloy construiu uma trajetória sólida, com resultados reconhecidos, e tem todas as condições de continuar contribuindo, inclusive em um eventual cenário político diferente, caso Fábio Mitidieri não seja reeleito. Mas também é preciso reconhecer que a Secretaria de Segurança Pública não é obra de um homem só. Há quadros qualificados dentro da própria SSP, gente preparada, com conhecimento técnico e vivência, capazes de dar continuidade ao trabalho com novos olhares. Segurança hoje exige tecnologia, inteligência, integração de dados e capacidade preditiva. Ou seja, pode haver continuidade com evolução, seja com João Eloy ou com novos nomes que já estão dentro do sistema, prontos para assumir esse próximo ciclo.
Enquanto isso, a água resolveu virar a verdadeira estrela da campanha. E não é estrela de bastidor, não, é protagonista mesmo, dessas que rouba a cena e ainda apaga o resto do elenco. Quem entende de política já sacou: o jogo não vai ser decidido pela sirene da viatura, mas pelo barulho, ou melhor, pelo silêncio, da torneira. Fábio Mitidieri entra nesse campo carregando uma bomba hidráulica nas costas. Porque se a água continuar sumindo, não tem coletiva, não tem dado, não tem operação policial que dê conta de salvar a narrativa. Pode ter segurança de primeiro mundo, mas sem água, o eleitor continua vivendo em modo sobrevivência.
No fim das contas, Sergipe está vivendo aquele tipo de situação que parece piada pronta, mas ninguém está rindo. Um Estado que consegue patrulhar, vigiar, responder rápido… mas não consegue garantir o básico que sai da torneira. É quase um roteiro de humor involuntário: o governo corre de helicóptero para a crise, mas o problema continua enterrado no cano. E política não aceita esse tipo de desequilíbrio por muito tempo. Hoje até rende aplauso em um setor, mas amanhã cobra conta com juros e correção na urna.
Porque no final, o eleitor não está interessado em escolher entre viver seguro ou viver com dignidade. Ele quer as duas coisas, simples assim. Só que, quando falta o essencial, o resto perde valor rápido. E o sergipano já está fazendo essa conta sem calculadora: segurança é importante, claro, mas água é inegociável. E hoje, no meio desse cenário todo, o que está faltando não é polícia na rua. É água na torneira.




