Semana passada fui ácido, e com razão. E, se alguém esperava que eu voltasse mais manso hoje, esqueça. Porque, sim, Sergipe está mudando, mas não se iluda: se o governo achar que já venceu, perde o jogo antes do apito final. Fábio Mitidieri tem na mão o melhor momento fiscal e político da história recente do Estado. O que ele fizer agora pode colocar Sergipe no mapa dos Estados que deram a volta por cima, ou jogá-lo de volta para o velho e deprimente “quase lá” que nos perseguiu por décadas. Elogios? Dou, claro. Mas aviso: são elogios com a ponta do dedo na ferida, porque, neste momento, a maior ameaça ao governo é acreditar demais na própria propaganda.
Os números são impressionantes e ninguém pode negar. Sergipe está com um endividamento de 4,54% da Receita Corrente Líquida. Só para comparar: Pernambuco está atolado com mais de 30%, Bahia passa dos 40%, e Alagoas, com 20%, parece um “gastador compulsivo” perto de nós. E o Senado permite que Estados vão até 200%. Sergipe, hoje, está no grupo seleto dos mais organizados financeiramente, rivalizando com Paraná e Santa Catarina.
Legal. Palmas. Mas isso não paga conta de luz de quem está com o ventilador quebrado no Huse. Isso só serve para alguma coisa se virar investimento rápido e eficiente. Equilíbrio fiscal não é troféu de estante; é munição. E munição guardada enferruja. O governo acertou ao negociar crédito a 6% com bancos internacionais enquanto capitaliza dinheiro da Deso a 15%. É gestão inteligente, e Fábio Mitidieri, ao menos nisso, está um passo à frente de muitos governadores que preferem estourar cofre em vez de fazer conta. Mas vamos combinar: dinheiro parado não enche barriga nem conserta buraco.
Dois programas gigantes, Progestão e Profisco, prometem revolucionar a arrecadação, digitalizar processos e até aumentar a receita sem subir impostos. Mas promessa boa já tivemos aos montes. E aqui vai o recado: se Sergipe demorar 18 meses para liberar recursos e 24 para mostrar resultados, a população vai lembrar mais do atraso do que dos números bonitos em coletivas de imprensa.
Sim, são 300 obras em execução, 80% dos municípios contemplados, R$ 3,2 bilhões já aplicados e 51 mil empregos gerados. Parece música para os ouvidos, mas cuidado: a pior armadilha de um governo é começar a acreditar que aplaudo de hoje garante voto de amanhã. No sertão, a pavimentação da SE-331 e a duplicação da SE-220 são vitais. Para quem antes precisava rezar para não quebrar o carro em buraco, é uma revolução. Mas e nas cidades grandes? E no transporte público de Aracaju, que continua um caos? O sertanejo agradece a nova ponte sobre o Rio Jaguaribe, mas ele também quer hospital funcionando e escola de qualidade para os filhos. E quer já.
O Hospital do Amor, em Lagarto, começou a atender com serviços oncológicos, e o Hospital do Câncer, em Aracaju, está 90% pronto. Ótimo. Mas aqui vai a frase mais dura deste editorial: inaugurar prédio é fácil, manter atendimento decente é o verdadeiro inferno da gestão pública. E não adianta inaugurar em dezembro e, em março, voltar a ter fila quilométrica de pacientes sem quimioterapia. O Huse recebeu ventiladores de última geração, renovou 100% das macas. Mas quem está na fila do ortopedista continua passando raiva. Então, Fábio, aqui vai a cobrança: o tempo de tolerância para erros na saúde acabou. Ou a rede funciona de verdade ou o saldo positivo do governo derrete.
Na educação, há avanços visíveis: Sergipe bateu meta de alfabetização, entregou 74 obras em 30 meses e escolas como o Centro de Excelência José Rollemberg Leite viraram referência, com salas climatizadas e laboratórios. E programas como o “Sergipe no Mundo” são um acerto gigante, ver jovens pobres viajando para estudar no exterior é a prova de que educação transforma vidas. Mas, enquanto uns estão indo para a Irlanda, outros ainda estudam em escolas com goteiras no interior. Não existe transformação real com ilhas de excelência cercadas por abandono. Na cultura, o Gonzagão voltou a ser orgulho. R$ 2,1 milhões reformaram telhado, acústica, acessibilidade. Mas cultura não pode ser só palco bonito para foto de evento; precisa ser política permanente.
Resumindo: Fábio Mitidieri tem saldo positivo, sim. Sergipe vive um momento raro: equilíbrio fiscal, planejamento de longo prazo e obras que, finalmente, saem do papel. Mas, e aqui vai meu alerta final: não adianta ter a melhor largada da história se o carro quebra antes da linha de chegada. O governo precisa ser mais rápido, mais ousado e, principalmente, mais presente na vida real das pessoas. Porque, se a maratona da gestão pública exige fôlego, Sergipe não pode andar, tem que correr.
Se Mitidieri mantiver o ritmo e acelerar, pode entrar para a história como o governador que transformou Sergipe em protagonista do Nordeste. Mas, se acomodar, será apenas mais um nome na lista dos que prometeram muito e entregaram menos. E, convenhamos, ninguém quer voltar a ser o “quase lá” do Brasil. Um forte abraço e bom final de semana!




