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Editorial: Sergipe entrou na era dos senadores sem palanque 

A eleição para o Senado em Sergipe começou a ganhar um desenho curioso, quase aquelas mesas de dominó em praça de interior onde todo mundo acha que está jogando sozinho, mas na verdade está de olho na pedra do vizinho. Hoje, o estado possui pelo menos oito pré-candidatos competitivos, mas o mais engraçado é perceber que metade deles já chega montada em palanque de governo, enquanto a outra metade parece disputar eleição carregando a própria caixa de som nas costas. E, convenhamos, em política, subir em palanque alheio é confortável. Difícil mesmo é carregar o trio elétrico sozinho.

Do lado governista, André Moura e Rogério Carvalho aparecem com estrutura pesada. Têm o governador Fábio Mitidieri, têm o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e têm máquina política funcionando em ritmo de vaquejada de interior. André Moura, aliás, larga com uma vantagem simbólica importante: foi um dos primeiros nomes escolhidos por Fábio para esse projeto e tem mais projeto que o próprio Gov. Isso, em política, significa mais do que foto sorrindo. Significa confiança antecipada, e confiança antecipada em grupo político vale quase tanto quanto voto consolidado.

Na direita, a situação parece aquelas bandas de forró onde todo mundo quer cantar no refrão principal. Delegado André David e Eduardo Amorim chegam embalados pelo palanque de Valmir de Francisquinho e pela possibilidade de conexão direta com Flávio Bolsonaro. Eduardo Amorim, especialmente, reaparece no jogo com desempenho consistente, falando menos, errando pouco e mantendo presença política organizada. Em eleição majoritária, às vezes o sujeito que parece mais silencioso é justamente o que está contando voto sem fazer alarde.

E como se já não houvesse divisão suficiente no campo conservador, ainda surgem Rodrigo Valadares e Coronel Rocha navegando na embarcação de Ricardo Marques e também orbitando o bolsonarismo sergipano. Resultado: Flávio Bolsonaro talvez precise de GPS eleitoral para descobrir em qual palanque estará em Sergipe a cada semana. A direita sergipana vive hoje aquela clássica situação de família grande em almoço de domingo. Todo mundo se ama, mas cada um quer sentar na cabeceira da mesa.

No meio dessa multidão de palanques aparece Edvaldo Nogueira fazendo talvez a aposta mais ousada e ao mesmo tempo mais simples da eleição. O PDT praticamente montou uma chapa de sobrevivência emocional: não tem chapa de estadual, não tem chapa federal para dividir atenção e nem multidão brigando pelo fundo eleitoral. É quase uma candidatura monástica. Todo o esforço gira em torno do Senado. E, curiosamente, isso pode virar virtude. Enquanto os outros candidatos administram guerras internas, Edvaldo parece montar campanha com foco total, sem precisar apartar briga de aliado querendo santinho maior.

E o mais curioso é que Edvaldo vem conseguindo se movimentar bem. Chega leve, conversa, circula e mantém aquela postura de político que conhece o interior, conhece a capital e sabe que eleição majoritária não se ganha apenas no grito de rede social. Existe uma inteligência silenciosa nessa estratégia. Enquanto alguns grupos vivem em clima de micareta eleitoral permanente, Edvaldo parece optar pelo cafezinho demorado, pela conversa tranquila e pelo corpo a corpo clássico. Em Sergipe, isso ainda funciona mais do que muito marqueteiro de internet imagina.

Já Alessandro Vieira vive talvez a situação mais curiosa do tabuleiro. Começou próximo ao governo, transitou pelos corredores governistas, mas acabou saindo da composição e vendo o espaço ocupado por Rogério Carvalho. Sobrou para Alessandro uma candidatura quase artesanal, sustentada por um MDB que concentra força em deputados estaduais, mas sem um palanque robusto de governador ou presidente. Em outras palavras: Alessandro hoje disputa uma eleição de Senado praticamente na raça, no discurso e na capacidade de sobreviver politicamente num ambiente onde alianças mudam mais rápido do que humor de grupo de WhatsApp em véspera de pesquisa eleitoral.

No fim das contas, Sergipe talvez esteja vivendo a eleição para o Senado mais embolada e divertida dos últimos anos. Tem candidato com palanque sobrando, candidato sem palanque nenhum, candidato tentando dividir o mesmo eleitor e até palanque compartilhado igual carro de aplicativo em horário de pico. O mais impressionante é que qualquer um desses nomes pode chegar ao Senado sem que isso hoje pareça absurdo. E talvez aí esteja a verdadeira fotografia política de Sergipe em 2026: ninguém está morto, ninguém está eleito e todo mundo desconfia de todo mundo enquanto sorri para a foto.

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