Na política sergipana, um sujeito pode roubar verbo, conjugar mentira e desaparecer com promessa que ninguém se espanta. Agora, um homem visita outro para desejar saúde e pronto: sirenes ligadas, comentaristas espumando, bastidor em chamas e grupo de WhatsApp em estado de calamidade pública. Foi isso que fizeram com a visita de Valmir de Francisquinho a Belivaldo Chagas.
Valmir é aquele tipo raro de político que não entra em lugar nenhum sem ser percebido. Não precisa assessor gritando nome, não precisa pastel com marketing, não precisa posar pra foto abraçando criança que nunca viu. Basta chegar. A voz rouca entrega antes do aperto de mão. Feira do interior reconhece timbre melhor que reconhecimento facial. Quando Valmir corta uma carne ali, brinca aqui, abraça acolá, não é performance. É origem. É memória afetiva de quem já foi marchante antes de virar líder político. Carisma não se ensina em curso de oratória, nem se compra em consultoria eleitoral. Ou tem, ou não tem. E Valmir tem.
Pois bem. No sábado, em vez de gravar vídeo inflamado, convocar coletiva ou soltar indireta cifrada, Valmir fez algo revolucionário para os padrões atuais: ligou. Perguntou se podia passar. Foi visitar Belivaldo Chagas, ex-governador, adversário político de outros tempos, hoje um homem em recuperação de cirurgia, enfrentando tratamento duro, daqueles que não respeitam cargo, ideologia nem histórico eleitoral. Levou consigo Ícaro, Marcos Oliveira, Adailton Sousa. Não foi visita solitária, nem escondida, nem conspiratória. Foi clara, pública, assumida. Um gesto simples, humano e, por isso mesmo, insuportável para quem vive de intriga.
A reação? Tentaram transformar abraço em acordo secreto, café em conspiração e cordialidade em traição. Ressuscitaram frases antigas, cortes fora de contexto, ressentimentos requentados. Gente que confunde política com ringue ficou incomodada ao ver dois adultos fazendo algo que falta há anos no debate público: maturidade.
E aqui entra Belivaldo Chagas. Belivaldo poderia ter feito o fácil. Fechado a porteira, recusado a visita, alimentado narrativa de mágoa eterna. Preferiu o caminho mais raro e mais elegante: recebeu. Recebeu bem. Recebeu com civilidade. Recebeu um adversário de ontem como alguém que entende que divergência política não suspende humanidade. Isso, convenhamos, é coisa de estadista, não de animador de torcida.
A tentativa de jogar Valmir contra Emília Corrêa, de forçar racha na direita, de criar novela onde só houve visita, revela mais sobre quem fala do que sobre quem agiu. A direita sergipana não está em guerra civil. Está em ajuste fino, como todo agrupamento político vivo. Quem nunca teve a primeira briga do casal não sabe o que é relação duradoura.
Faltam dez meses para a eleição. Política não é miojo. Não se resolve em três minutos nem se entende por manchete apressada. Enquanto alguns tentam incendiar, Valmir segue fazendo o que sempre fez: andando, conversando, sendo reconhecido sem pedir aplauso. E Belivaldo, por sua vez, mostrou que grandeza não está no cargo que se ocupa, mas na postura que se mantém quando o cargo já passou.
No fim das contas, o maior escândalo dessa história é justamente a ausência de escândalo. Não teve acordo secreto, não teve conspiração noturna, não teve traição embrulhada em guardanapo. Teve gente adulta conversando, algo que parte da fauna política sergipana só conhece por livros de ficção.
E para quem esperava sangue, gritaria e dedo na cara, sobrou frustração. Maturidade política, ao que tudo indica, segue sendo tratada como crime hediondo em certos círculos. Um gesto civilizado virou ameaça, um abraço virou delação premiada e uma visita virou roteiro de Netflix escrito por quem nunca ganhou uma eleição nem na pelada do bairro. Sergipe não se chocou com a visita. Quem se chocou foi quem vive do conflito. E esses, definitivamente, não estavam convidados.





Uma resposta
Gostou da matéria meu advogado.