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Editorial:  Valmir fez leitura política. Fábio apostou no automático

A política raramente grita. Ela avança em silêncio, dá sinais, repete gestos e testa reações. Quem espera o estrondo costuma perceber tarde demais que o jogo já foi decidido. Em Sergipe, o que está em curso não é um fato isolado nem uma fotografia fora de contexto. É uma sequência organizada de movimentos que vem sendo construída há meses e que agora começa a ganhar forma visível. O verdadeiro risco político não está no escândalo explícito, mas na incapacidade de interpretar os sinais enquanto ainda há tempo de reagir.

Nada surgiu por acaso. A primeira movimentação concreta ocorreu quando Valmir de Francisquinho, ao lado de Ícaro de Valmir, Marcos Oliveira e do ex-prefeito de Itabaiana Adailton Souza, visitou Belivaldo Chagas. Não foi visita social nem gesto protocolar. Foi política direta, feita com leitura de cenário e cálculo. Dias depois, Belivaldo recebeu Thiago de Joaldo. Aproximadamente um mês mais tarde, foi a vez de Eduardo Amorim, ex-senador e pré-candidato ao Senado, tudo sob o olhar de Edvan. A partir daí, já não se tratava de encontros isolados, mas de uma convergência clara de forças oposicionistas.

Nesse intervalo, de forma natural e sem alarde, o nome de Priscila Felizola começou a circular como possibilidade de vice na chapa de Valmir. Não como imposição nem como balão de ensaio, mas como resultado de uma construção progressiva. Primeiro as visitas, depois as convergências, só então o nome. É assim que a política real costuma operar. Quem acompanhou o processo entendeu. Quem ignorou, talvez só perceba quando a chapa estiver formalizada.

No campo jurídico, Valmir também não agiu por impulso. A ida ao STJ foi fruto de uma leitura estratégica. Nos últimos dois anos, o TJ/SE homologou diversos acordos de não persecução, tanto na esfera cível quanto na penal. No caso de Valmir, mesmo após absolvição em primeira instância, o acordo cível foi o primeiro a não ser homologado, criando um tratamento distinto do padrão adotado pelo próprio tribunal. Essa negativa deslocou naturalmente o debate para Brasília. A liminar no STJ não foi surpresa, mas consequência de um processo que encontrou resistência local. Hoje, a possibilidade de um acordo de não persecução civil diretamente no STJ já está em análise institucional.

Os movimentos seguintes apenas confirmaram o desenho que vinha sendo traçado. Visitas se repetiram, interlocutores passaram a circular nos mesmos ambientes e a presença de lideranças da oposição ao lado de Valmir deixou de ser episódica. Nos bastidores, a hipótese Priscila deixou de ser especulação difusa e passou a ganhar consistência política.

O episódio do Sealba sintetizou esse processo. Não houve improviso. Priscila poderia ter escolhido outro dia, outro formato, outras companhias. Preferiu aquele momento e aquelas pessoas. Circulou com lideranças dos Republicanos, do Podemos, com Eduardo Amorim, Emília e Thiago e outros da oposição. Caminhou, conversou, foi observada. Em determinado instante, alguém brincou em voz alta sobre a possibilidade de ela ser a futura vice. O ambiente reagiu com risos e silêncio atento. Valdir, com naturalidade, sorriu e comentou em voz baixa que poderia ser, desde que feito com cuidado e no tempo certo. Foi simples, público e suficiente para comunicar o recado.

Priscila não surge como improviso nem como apêndice político. Construiu identidade própria, trajetória própria e presença própria. Há método nos gestos, controle no discurso e um projeto em formação, ainda não anunciado, mas perceptível para quem observa com atenção.

Enquanto isso, o governo demonstra sinais claros de desgaste interno. A relação mal resolvida com André Moura, a antecipação da chapa majoritária e a tentativa de acomodar Alessandro Vieira sem resolver conflitos de base produziram rachaduras visíveis. Rachaduras não derrubam um governo sozinhas, mas indicam fragilidade quando ignoradas. André Moura já afirmou que o governador não conseguiu unir o grupo. Não é provocação. É diagnóstico político.

Governar bem não compensa articular mal. Obras não substituem liderança, e entregas não anulam a ausência de comando político. Com a oposição se organizando de forma metódica, o risco deixa de ser teórico. Soma-se a isso um fator sensível e ainda mal resolvido: a crise da água. No interior e principalmente no sertão, a insatisfação com a Iguá é generalizada. Água é pauta concreta, cotidiana e politicamente explosiva.

O governador ainda tem tempo. Pouco, mas real. Na política, nove meses podem ser redenção ou colapso. Os sinais estão dados. Ignorá-los agora é optar por avançar acreditando que nada mudou. A política, no entanto, já avisou. A oposição se move com método. A pedra está sendo lapidada. E quem não lê os sinais corre o risco de virar nota de rodapé da própria gestão.

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