Editorial
Em dezembro de 2024, os municípios sergipanos receberam uma fortuna da primeira parcela da concessão da DESO. Um valor histórico, capaz de transformar cidades inteiras com obras de saneamento, infraestrutura, saúde e meio ambiente. Quase seis meses depois, o que se vê é um vácuo de transparência, um silêncio institucional constrangedor e um rastro de irresponsabilidade administrativa.
Agora, em maio de 2025, outra bolada de R$ 363 milhões foi repassada. Enquanto prefeitos fazem pose para fotos e discursos prometendo revoluções urbanas, o povo continua pisando na lama, os buracos seguem abertos e as escolas, sucateadas.
E o pior: ninguém, absolutamente ninguém, parece querer cobrar onde foi parar o primeiro bilhão.O diagnóstico divulgado pelo Ministério Público de Contas há poucos dias foi estarrecedor. Treze municípios em situação grave, com desvios claros da finalidade dos recursos; outros 25 gastaram sem plano algum, e 12 simplesmente ignoraram a obrigação de prestar contas. Milhões desapareceram da noite para o dia, e os órgãos de controle estão, até agora, assistindo calados.
Em um dos casos, R$ 11,3 milhões viraram R$ 14,99 em poucos dias. O saldo virou piada. Em outro, mais de R$ 12 milhões evaporaram. Mas a pergunta que ninguém responde é: quem vai pagar por isso?
É inadmissível que, diante de tamanha gravidade, o Ministério Público Estadual e o Ministério Público de Contas não tenham adotado medidas concretas, públicas e exemplares. A sociedade exige, no mínimo, investigações profundas, ações civis públicas, bloqueio de bens e responsabilização imediata dos gestores que fizeram do dinheiro público um caixa eletrônico sem senha.
A omissão é, neste momento, uma forma de cumplicidade. O cidadão está sendo lesado em dobro: primeiro pela má gestão, depois pela conivência de quem deveria agir. O silêncio dos órgãos de controle grita mais alto que qualquer discurso político.
É preciso cobrar, agora, com urgência e seriedade: Onde está o detalhamento das prestações de contas da primeira parcela? Por que municípios que não prestaram contas já estão recebendo a segunda? Por que prefeitos não estão sendo responsabilizados legal e financeiramente? E o Ministério Público Estadual, vai se manifestar ou continuará se escondendo atrás de notas burocráticas?
Não há desculpa. Há leis. Há regras. Há um contrato de concessão assinado e bilhões em jogo. A tolerância com esse tipo de desvio é o que alimenta o ciclo vicioso de impunidade que condena gerações inteiras à miséria e à desilusão com a política.
Chegou a hora de dizer basta. Ministério Público de Contas e Ministério Público Estadual: prestem contas à população sobre o que estão fazendo para impedir que esse escândalo vire estatística.Porque se nada for feito agora, em dezembro vem a terceira parcela. E com ela, mais um capítulo da farra. E dessa vez, quem silenciar será cúmplice.
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